SÃO PAULO — O senador Flávio Bolsonaro (PL) ficou por alguns dias em um apartamento usado durante sua campanha à Presidência da República. O imóvel pertence à WT Administração de Imóveis e Bens, empresa do advogado Willer Tomaz, investigado pela Polícia Federal no caso dos descontos indevidos em aposentadorias e pensões do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).
O apartamento fica no condomínio l'Adresse, na Vila Nova Conceição, zona sul de São Paulo. Frequentadores do edifício disseram ter visto o senador no local na primeira quinzena de agosto. Também houve movimentação de agentes de segurança durante a estadia. O comitê de campanha ficava a cinco minutos de carro, na avenida República do Líbano.
A escritura informa que o imóvel tem 158 m² e três vagas de garagem. Antes de pertencer à empresa de Tomaz, o apartamento era de Fabiano Zettel, cunhado e operador financeiro de Daniel Vorcaro, do Banco Master. Zettel comprou a unidade em abril de 2025, por R$ 5,5 milhões. A transferência para a empresa de Tomaz ocorreu em fevereiro deste ano, por R$ 3,5 milhões.
O registro em cartório foi feito em 4 de março, no mesmo dia em que Zettel se entregou à Polícia Federal e foi preso. Procurado, ele não quis se manifestar. Tomaz afirmou que não conhece Zettel nem Vorcaro e que jamais manteve relação pessoal ou comercial com eles ou com pessoas ligadas aos dois. A assessoria de Flávio disse que não se manifestaria.
Questionamento no TSE
A deputada federal Fernanda Melchionna (PSOL-RS) acionou o Tribunal Superior Eleitoral contra Flávio. Ela afirma que o uso do apartamento deveria ter sido declarado como doação feita pelo advogado ou registrado como despesa de campanha. Até o momento, o senador não declarou o uso à Justiça Eleitoral.
No pedido apresentado ao ministro Ricardo Villas Bôas Cueva, Melchionna afirma que a omissão pode configurar infração grave. A deputada também levantou a hipótese de contribuição feita por meio da empresa de Tomaz. “Situação mais grave ainda [é se] houve doação irregular de pessoa jurídica em favor da campanha eleitoral”, escreveu. Segundo ela, o uso do imóvel teria ocorrido na primeira quinzena de agosto de 2026, antes da data-limite da prestação parcial de contas.
A Polícia Federal aponta Tomaz como “hub financeiro, patrimonial e logístico” do senador Weverton Rocha (PDT-MA). Rocha foi alvo de buscas em dezembro de 2025 na Operação Sem Desconto, que investiga fraudes em descontos aplicados a aposentadorias e pensões do INSS. Em agosto, Tomaz e familiares de Rocha foram alvo de uma nova fase da operação.
A PF afirma que Rocha seria responsável por formular demandas, indicar beneficiários, cobrar pagamentos, acompanhar repasses, tratar de imóveis, orientar providências e interferir em decisões patrimoniais. Tomaz seria associado a empresas, imóveis, aeronaves, pilotos, funcionários, operadores financeiros e interlocutores políticos.
Flávio e Tomaz já tiveram outros episódios de proximidade. Em 2022, o senador tentou indicar o advogado para o Conselho Nacional de Justiça, sem sucesso. Em 2025, os dois viajaram com as esposas para a Flórida, nos Estados Unidos, em um jatinho de Tomaz.


