A inteligência artificial passou a integrar a estética da propaganda eleitoral e aparece nas campanhas de Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL). O uso é mais amplo entre candidaturas menores, que trabalham com orçamentos reduzidos e recorrem à tecnologia para produzir imagens e conteúdos para as redes sociais.
Dirlene Ferreira, candidata à Assembleia Legislativa de Minas Gerais pelo Partido Novo, usa imagens geradas pelo ChatGPT em praticamente todo o seu perfil oficial. A ferramenta também foi utilizada na foto que será apresentada nas urnas eletrônicas.
A candidata afirmou que recorreu a recursos para melhorar a qualidade da fotografia e descreveu a ferramenta como uma forma acessível de produzir conteúdo. Na prestação de contas disponível no site do TSE, a campanha registrou receitas e despesas nulas. Dirlene também não declarou bens.
“Achei uma forma prática e acessível de produzir conteúdos para as redes sociais e apresentar meu trabalho de uma maneira diferente”, disse.
A plataforma Pangram, que identifica textos produzidos por robôs, apontou que 100% das respostas dadas pela candidata foram escritas por IA.
Como as campanhas usam a tecnologia
O professor Diogo Cortiz, da PUC-SP, afirma que a IA entrou na produção audiovisual para diferentes finalidades. A tecnologia reduz tempo e custo em trabalhos que antes poderiam exigir modelagem e animação tradicionais, além de equipes de filmagem, elenco e locação.
Na propaganda de TV de Lula, o recurso aparece principalmente no apoio visual, com sequências animadas que remetem a jogos como Minecraft e buscam dialogar com o público jovem. Na campanha de Flávio, a tecnologia cria pessoas por computação gráfica, inclusive em ambientes de favela, para conversar com eleitores de menor renda.
Cortiz considera esse segundo uso mais sensível porque ele constrói uma realidade inexistente. As campanhas também conseguem testar rapidamente diferentes cenários, atores e representações de raça, sem arcar com o custo de várias gravações.
Para o professor, reconhecer o que foi gerado por IA ficou mais difícil. A identificação depende da qualidade do material e do repertório de quem o observa.
A artista e professora Giselle Beiguelman, da FAU da USP, afirma que a tecnologia facilita a reprodução contínua de fórmulas visuais, com pequenas alterações. Ela avalia que o design não se limita a criar uma imagem de impacto: envolve organizar informações, estabelecer relações e considerar o contexto e a legibilidade.
Regras para o aviso ao eleitor
Segundo o advogado eleitoral Fernando Neisser, professor de direito eleitoral na FGV, a norma do TSE separa o uso da IA em três categorias. Alterações consideradas apenas cosméticas, como correção de brilho ou de timbre de voz, não precisam de aviso.
Já os recursos que criam ou substituem elementos por uma realidade inexistente exigem uma indicação explícita, destacada e acessível. Também são proibidos bots que se passam por humanos, conteúdos de desinformação e deepfakes que recriam pessoas reais com alto grau de realismo.
A regra não estabelece tamanho de letra nem duração mínima para o aviso. A exigência é que ele seja exibido em formato compatível com o meio de veiculação, de modo legível. A ausência de parâmetros fixos busca evitar o excesso de rótulos, que poderia banalizar os alertas.
A fiscalização não é iniciada automaticamente pelo TSE. Ela depende de representações apresentadas por adversários. Neisser afirma que esse modelo ajuda a explicar por que problemas relacionados aos avisos são mais comuns em campanhas menores: candidaturas grandes podem evitar ações para não criar uma narrativa de perseguição ou vitimização contra o alvo.
Beiguelman afirma que a IA não criou a montagem nem a fabricação de situações fictícias. A novidade, segundo ela, está no chamado “slop”: imagens sintéticas, produzidas em série e com baixo esforço, voltadas principalmente à obtenção de visualizações e engajamento nas redes sociais.
A automação também permite solicitar resultados por meio de palavras, os chamados prompts. Para a professora, isso transfere ao sistema a interpretação visual de termos como “profissional”, “popular” e “patriótica”, levantando dúvidas sobre quais aparências de liderança, autoridade e representação da sociedade brasileira são produzidas pelas plataformas.



