SÃO PAULO — A Polícia Federal apontou o deputado federal Cezinha de Madureira (PL-SP) como peça central de um suposto esquema de venda de influência sobre ministros de tribunais superiores. A investigação foi enviada ao Supremo Tribunal Federal (STF), e a decisão sobre as medidas é do ministro Flávio Dino.
Segundo a PF, o deputado teria usado a posição no Congresso para transmitir a clientes a ideia de que poderia influenciar decisões de magistrados. A investigação afirma que ele faria contatos com ministros e participaria de despachos, reuniões ou conversas sobre processos, usando o trânsito institucional associado ao mandato parlamentar.
Os ministros e juízes mencionados nas conversas não são alvos da apuração nem suspeitos de irregularidades, conforme a representação da PF e a decisão de Dino.
Divisão de tarefas
A estrutura investigada teria ainda duas advogadas. Valéria Rodrigues Linhares, apontada pela PF como esposa do deputado, seria responsável por redigir, revisar e assinar contratos de prestação de serviços e documentos ligados a cessões de créditos de valores milionários. Esses instrumentos formalizariam pagamentos relacionados às causas judiciais sob investigação.
Mariângela Fialek, conhecida como Tuca e então servidora da Câmara dos Deputados, teria atuado na captação de causas e na preparação de memoriais e outras peças jurídicas. Ela também é investigada por suspeitas de desvios de emendas parlamentares. O celular da advogada foi periciado na primeira fase da operação, e o conteúdo analisado foi citado pela PF como base para novas medidas.
Mensagens obtidas pelos investigadores tratam de casos em tramitação no STF. Na defesa da prefeita de Beberibe (CE), contratos previam R$ 500 mil se houvesse decisão favorável. Em outro caso, relacionado à defesa de um ex-secretário de Belford Roxo (RJ), os termos indicavam repasses de R$ 1 milhão, com aditivos de até R$ 2 milhões condicionados à revogação de prisão preventiva.
As conversas registravam relatos do parlamentar sobre encontros e audiências com magistrados, incluindo expressões como “já falei” e “despachei sim”.
Dinheiro apreendido e buscas
Flávio Dino determinou que o STF assumisse as apurações sobre a apreensão de R$ 510 mil em dinheiro vivo com Valéria Rodrigues Linhares no Aeroporto de Congonhas (SP), em 25 de agosto de 2026. Para a PF, o uso expressivo de dinheiro em espécie pode indicar pagamentos de honorários fora do sistema bancário tradicional, com dificuldade maior de rastreamento.
O ministro autorizou buscas em endereços residenciais e profissionais do deputado e da advogada em Brasília e em São Paulo. Também permitiu o recolhimento de bens de valor, veículos e quantias em espécie superiores a R$ 10 mil. A PF, porém, não recebeu autorização para buscar no gabinete do deputado na Câmara dos Deputados, porque Dino considerou que não havia elementos concretos para justificar a medida naquele local.
Em nota, a defesa afirmou que Cezinha de Madureira confia na Justiça, está à disposição das autoridades e prestará esclarecimentos. Disse ainda que o deputado considera que os fatos serão esclarecidos com o acesso da defesa à investigação e ao processo, e que nenhuma irregularidade foi cometida.


