Mais de 1.600 primatas foram anunciados para venda em quatro redes sociais durante um monitoramento de seis semanas realizado em 2025. O levantamento faz parte de um estudo publicado na revista Nature Reviews Biodiversity, que identificou a presença do comércio ilegal de fauna e flora em diferentes ambientes digitais.
Em outro monitoramento, também com duração de seis semanas, pesquisadores encontraram 33.006 exemplares de espécies protegidas pela Convenção sobre Comércio Internacional das Espécies da Flora e Fauna Selvagens em Perigo de Extinção (Cites) em 280 plataformas. Animais vivos representavam 54% dos anúncios. Os 46% restantes correspondiam a partes ou produtos derivados.
A pesquisa foi liderada por Enrico Di Minin, professor da Universidade de Helsinque, na Finlândia, com participação de uma equipe internacional. Entre os grupos identificados estavam aves, serpentes, rãs, orquídeas e cactos.
Escala e dificuldade de fiscalização
Os autores associam a expansão do comércio digital à baixa percepção de risco, à regulação insuficiente das plataformas e ao anonimato oferecido por esses ambientes. A internet também permite que as operações ocorram com mais rapidez e em escala superior à dos circuitos tradicionais, afirma Neil D'Cruze, coautor e pesquisador da Universidade Metropolitana de Manchester.
“O comércio ilegal de fauna e flora silvestres online se estende por inúmeras plataformas, incluindo as redes sociais mais populares, e representa uma ameaça crescente e em constante evolução para a conservação da biodiversidade”, disse Di Minin.
Os pesquisadores afirmam que os efeitos do tráfico não se restringem às espécies colocadas à venda. A atividade pode elevar os riscos relacionados à introdução de espécies invasoras e à transmissão de doenças entre animais e seres humanos. Ainda existem, porém, lacunas para calcular o tamanho real desse mercado e compreender o comportamento dos consumidores, o que dificulta a elaboração de respostas eficazes.
Exemplos no continente africano
Dados da Universidade da Cidade do Cabo (UCT) mostram que cerca de 800 mil papagaios-cinzentos-africanos foram comercializados internacionalmente entre 2010 e 2021. O monitoramento de contas de exportadores no Facebook no Togo também encontrou mais de 200 espécies diferentes anunciadas.
Na África do Sul, o bioma do Karoo Suculento evidencia a velocidade das mudanças nesse mercado. A planta suculenta do gênero Conophytum passou a ser muito procurada por colecionadores internacionais desde 2019. O aumento no número de coletores saturou o mercado ilegal, e o preço caiu aproximadamente para um centésimo do valor original em três anos.
A redução do preço não eliminou a pressão sobre a fauna e a flora. Conforme a UCT, a coleta passou a alcançar outros tipos de plantas e répteis.
Resposta proposta pelos pesquisadores
Annette Hübschle, pesquisadora da UCT e única coautora do estudo baseada na África, afirma que tecnologia e aplicação da lei, isoladamente, não bastam. Ela defende que as comunidades locais e a experiência do Sul Global sejam consideradas em um campo de pesquisa concentrado principalmente em ferramentas de detecção, fiscalização e regras das plataformas.
Entre as medidas propostas estão o uso ampliado de inteligência artificial na vigilância, o reforço da moderação dos serviços digitais e uma coordenação maior entre empresas de tecnologia, reguladores, organizações não governamentais e comunidades. Os pesquisadores também destacam o papel de marcos internacionais, como a Cites e a Lei dos Serviços Digitais da União Europeia.
Para Di Minin, o problema é “complexo, mas não insuperável” e requer cooperação entre diferentes setores e políticas compatíveis com a dimensão digital do tráfico.



