Um conjunto de 14 contos que Ricardo Guilherme Dicke considerava perdido foi encontrado no arquivo pessoal do escritor e publicado em “Música de Mortos Suaves”. Os textos, provavelmente escritos antes de 1967, antecipam características de sua literatura, como a experimentação formal, o tom onírico e a presença recorrente da morte.
Dicke nasceu na Chapada dos Guimarães, no Mato Grosso, e passou a viver em Cuiabá aos seis anos. Morreu em 2008, sem acompanhar uma nova edição de “Madona dos Páramos”, romance que considerava seu melhor trabalho. Seu corpo está enterrado no Cemitério da Piedade, em Cuiabá.
Um arquivo de 50 quilos
Os contos foram localizados pelo pesquisador Rodrigo Simon de Moraes durante seu doutorado em teoria e história da literatura na Unicamp, defendido em 2021. Ele examinou 50 quilos de documentos do acervo de Dicke depois de entrar em contato com Ariadne, filha do escritor.
Moraes inicialmente buscava as pinturas de Dicke. Ao saber da existência de um conjunto de papéis deixado pelo autor, viajou a Cuiabá e recebeu autorização para levar o material. Entre os documentos havia um caderno de espiral, de cor ocre, com textos manuscritos, além de versões datilografadas.
A dificuldade para decifrar a caligrafia fez o pesquisador se concentrar nos textos datilografados. As semelhanças com o conteúdo do caderno indicaram que aquela era a versão preparada por Dicke para uma possível publicação. Duas histórias ficaram fora da coletânea porque já haviam sido publicadas. “Tríptico de Frei Dámaso”, sobre um triângulo amoroso entre dois frades e uma fiel, aparece modificado no romance “Caieira”, mas foi mantido na nova edição por nunca ter saído em sua forma original.
O próprio Dicke acreditava que os cupins haviam destruído os contos, comuns na temporada de chuvas do Mato Grosso. Em uma entrevista de 1994, ele lamentou a perda: “Quase chorei de tristeza! Foi uma hecatombe que procuro esquecer”.
Um autor fora do centro editorial
A obra de Dicke permaneceu distante do reconhecimento no meio literário. Segundo Moraes, a permanência do escritor em Cuiabá e a distância das editoras contribuíram para esse cenário. A extensão de seus livros também criava dificuldades práticas para cópia, envio e publicação.
Em 1967, Dicke recebeu menção honrosa no Prêmio Walmap pelo romance “Deus de Caim”, seu primeiro livro. O júri era formado por Guimarães Rosa, Jorge Amado e Antonio Olinto. Mais tarde, “Caieira” recebeu o Prêmio Remington de Prosa, e “Madona dos Páramos” ganhou o Prêmio Ficção de Brasília, da Fundação Cultural do Distrito Federal.
“Madona dos Páramos”, publicado originalmente em 1981, narra a fuga de 12 foragidos pelo sertão do Centro-Oeste brasileiro. A obra tem 518 páginas e é marcada por descrições extensas, digressões e experimentações de linguagem. Dicke também escreveu “Orcus”, romance recusado pela Civilização Brasileira em 1980.
Hilda Hilst descreveu a prosa do autor como tendo uma “oleosidade fascinante” e a definiu como “impressionantemente prolixo”. Para Moraes, os contos mostram que Dicke conseguia levar seu estilo ornamental para textos curtos.
As histórias reunidas no novo livro apresentam personagens solitários e imagens associadas aos mortos e à natureza. Em “Vigília”, a chuva é descrita como “um desespero”, enquanto o cemitério aparece como uma “floresta de cruzes”. Em “Entardecer, Domingo”, o autor usa expressões de influência espanhola, como “sem embargo”.
Essa marca pode estar relacionada ao casamento de Dicke com a uruguaia Adélia Boskov Todorov, em 1961. Em cartas à mulher, ele misturava português e espanhol. O pesquisador também encontrou uma tradução, feita por Dicke, de um conto do venezuelano Rómulo Gallegos.
O livro recupera uma fase inicial da produção de um escritor cuja literatura continuou ligada a narrativas longas e a uma linguagem particular. No prefácio, Moraes escreve que Dicke pode ter morrido sem saber que os contos haviam sobrevivido.



