SÃO PAULO — A empresa que tinha Alex Leandro Bispo dos Santos entre os sócios recebeu R$ 3 milhões do Instituto Conhecer Brasil (ICB) por serviços ligados à instalação de pontos de internet gratuita em São Paulo. O empresário também é réu por feminicídio e teve seus dados alterados no sistema nacional de mandados de prisão enquanto estava foragido.
A Favela Conectada Serviços e Tecnologia Ltda. foi subcontratada pelo ICB para executar atividades do programa WiFi Livre SP. O instituto tinha contrato de R$ 108 milhões com a Prefeitura de São Paulo para instalar 5 mil pontos de Wi-Fi em comunidades da capital. A contratação é investigada pela Polícia Civil por suspeitas de irregularidades.
Documentos da apuração registram três pagamentos feitos pelo ICB à Favela Conectada em junho e julho de 2025: duas notas fiscais de R$ 500 mil e uma de R$ 2 milhões. O acordo entre as empresas previa R$ 12 milhões. Alex ainda integrava a sociedade quando os repasses foram realizados.
Alteração no cadastro judicial
Em 23 de agosto, o Registro Judiciário Individual (RJI) de Alex no Banco Nacional de Monitoramento de Prisões (BNMP) passou a apresentar o nome e o CPF de outra pessoa. O sistema é usado pelo Judiciário para concentrar informações sobre mandados de prisão e outras medidas penais.
A modificação foi feita por meio do perfil da juíza titular da Vara Judicial da Comarca de Planalto, no Rio Grande do Sul, conforme documentos e e-mails internos do Tribunal de Justiça de São Paulo. A unidade gaúcha comunicou ao tribunal paulista que o acesso da magistrada havia sido comprometido. A informação enviada ao TJ-SP afirma que terceiros teriam usado a senha e as credenciais para alterar registros e emitir documentos fraudulentos.
A inconsistência foi localizada em 16 de setembro pelo Ministério Público de São Paulo e pela equipe judiciária. Após pedido do TJ-SP, os dados foram corrigidos em 17 de setembro. O registro voltou a exibir a identidade de Alex e o mandado de prisão pendente. Nesse intervalo, o cadastro com dados incorretos permaneceu nas consultas por cerca de 24 dias.
O CNJ e o TJ-SP informaram, em nota, que não comentam casos específicos. A defesa de Alex disse desconhecer a invasão e afirmou aguardar o julgamento do recurso que pede a liberdade do empresário.
Acusação de feminicídio
Segundo o Ministério Público de São Paulo, Alex é acusado de matar Maria Katiane Gomes da Silva ao arremessá-la do 10º andar do prédio onde os dois moravam. Câmeras de segurança registraram agressões contra ela antes da queda.
Após a morte, Alex foi ao velório e, conforme familiares, disse que Maria Katiane havia caído acidentalmente depois de uma discussão. Ele passou a ser considerado foragido, e a alteração no BNMP ocorreu dias depois de seu nome ser incluído entre os procurados.
Investigação sobre contratos
Em janeiro de 2026, Alex deixou formalmente a sociedade da Favela Conectada. Tatiane Camargo de Oliveira Fernandes assumiu o controle da empresa e, segundo registros da Junta Comercial de São Paulo, morava no mesmo endereço de Alex. Depois, a companhia passou a se chamar Urban Connect Serviços e Tecnologia Ltda.
A investigação sobre o contrato de Wi-Fi também alcançou empresas subcontratadas e examina a possível destinação dos recursos. O ICB é comandado pela empresária Karina Ferreira da Gama, responsável ainda pela produtora Go Up Entertainment, ligada ao filme “Dark Horse”, cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro.
A Polícia Civil investiga a relação entre o contrato municipal e a produção do longa. A suspeita é que recursos públicos possam ter sido desviados para o filme. Karina nega o uso de dinheiro público brasileiro e diz que a contratação do ICB pela Prefeitura ocorreu regularmente.
Em setembro, a Polícia Federal deflagrou a Operação Make Up, autorizada pelo ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, para apurar suspeitas relacionadas a emendas parlamentares e à produção de “Dark Horse”. Foram cumpridos 49 mandados de busca e apreensão em quatro estados.
A Prefeitura de São Paulo afirmou que colabora com as investigações e que a contratação do ICB seguiu os princípios de legalidade, transparência e economicidade. Não há decisão judicial concluindo que Alex tenha participado de eventual desvio de dinheiro público.



