Becky Jones passou 11 anos em tratamento contra um tumor cerebral que nunca existiu. Aos 21 anos, ela recebeu a informação de que tinha um câncer terminal e apenas alguns meses de vida. Aos 34 anos, descobriu que sofria de uma desmielinização tumefativa, uma inflamação no cérebro que normalmente pode ser tratada com corticoides em altas doses.
A confirmação veio em maio de 2025, após uma análise independente de imagens e exames feita por neurocirurgiões e radiologistas a pedido de seus advogados. Jones é uma das mais de 40 pessoas que movem uma ação contra o University Hospitals Coventry and Warwickshire (UHCW) NHS Trust por tratamentos contra o câncer considerados prolongados ou desnecessários.
Tratamento prolongado
Segundo Jones, o especialista Ian Brown informou que ela deveria tomar temozolomida, conhecida como TMZ, pelo resto da vida. As diretrizes citadas no caso recomendavam seis ciclos ao longo de seis meses. Mesmo depois de exames de imagem que pareciam não mostrar sinais de tumor, ela afirma que ouviu que a doença não seria “visível a olho nu”.
O tratamento começou depois de uma biópsia cerebral. Fiona Tinsley, advogada que representa pacientes, disse que Brown diagnosticou Jones com um glioblastoma de grau 4 antes que os resultados da biópsia estivessem disponíveis.
A quimioterapia provocou náuseas, dores no estômago, úlceras na boca e cansaço. O medo de infecções fez com que Jones evitasse eventos sociais e encontros familiares. Sua carteira de motorista foi inicialmente suspensa e depois teve o uso restringido. Ela também foi informada de que não poderia engravidar, mas teve dois filhos.
Em 2024, após mais de uma década de tratamento, Jones recebeu um telefonema informando que a quimioterapia seria interrompida. Ela disse que não recebeu explicações suficientes nem o nome de um novo oncologista. “Nunca tive um tumor cerebral. Fui diagnosticada erroneamente e passei por todo esse tratamento durante grande parte da minha vida adulta, sem motivo”, afirmou.
Investigação no hospital
As conclusões preliminares de uma investigação do Royal College of Physicians indicaram que pacientes recebiam TMZ por períodos prolongados, com pouca ou nenhuma evidência de benefício. Dos 20 casos analisados, 15 foram considerados insatisfatórios de modo geral. O médico identificado no documento como “Dr. Y” não participou da investigação.
A apuração também apontou poucas evidências de que os riscos do medicamento fossem compreendidos e registrados. Em alguns casos, houve curiosidade clínica insuficiente e falta de colaboração com especialistas de outras áreas. A investigação questionou ainda por que equipes de farmácia oncológica não contestaram o uso contínuo de quimioterapia oral por períodos de 10 a 15 anos.
Outros pacientes relataram problemas graves. Uma mulher disse acreditar que o medicamento causou infertilidade. Outra desenvolveu leucemia após passar por 100 ciclos considerados desnecessários.
O UHCW afirmou que não comentaria casos individuais e disse ter adotado medidas para garantir supervisão mais rigorosa da prescrição e do uso da TMZ. O hospital também informou que todos os pacientes afetados foram avaliados por médicos experientes e receberam planos de tratamento adequados.
A instituição declarou que conduz uma revisão independente de seus processos para permitir que funcionários relatem preocupações e que analisará a íntegra da investigação do Royal College of Physicians quando ela for publicada.



