O tráfico de pepinos-do-mar movimenta 200 milhões de dólares (R$ 1 bilhão) por ano e envolve diferentes etapas, da captura ao contrabando internacional. A procura é concentrada principalmente na China e no Sudeste Asiático, onde os animais são consumidos como iguaria e associados a propriedades afrodisíacas por causa do formato do corpo.
Apesar do nome, os pepinos-do-mar não são pepinos nem peixes. Eles pertencem ao grupo dos equinodermos, formado por animais marinhos invertebrados com pele ou revestimento rígido. Existem cerca de 1.500 espécies no mundo.
Função no ambiente marinho
As Ilhas Andamão, na porção mais oriental da Índia, concentram grandes quantidades desses animais. Ali, o biólogo Sangamesh Uday afirma que a região entre a maré alta e a maré baixa perderia sua característica de ecossistema sem os pepinos-do-mar: “não seria um ecossistema, mas apenas um conjunto de rochas quebradas”.
Os animais se alimentam de material orgânico, como bactérias e microalgas. Depois de decompor esse material, excretam areia limpa e oxigenada. O processo mantém nutrientes como nitrogênio e fósforo em circulação, reduz doenças nos corais e eleva a alcalinidade dos oceanos, ajudando a desacelerar a acidificação associada ao aquecimento das águas.
Consumo e expansão da pesca
Registros históricos indicam que pepinos-do-mar eram comercializados entre pescadores indonésios e comerciantes chineses há 800 anos. Hoje, podem ser usados em sopas, conservados como acompanhamento ou transformados em medicamentos tradicionais.
Embora existam evidências científicas de que o ômega-3 presente nesses animais tenha ação antioxidante e anti-inflamatória, a popularidade está ligada sobretudo à crença de que seu formato fálico indica propriedades afrodisíacas.
A pesca comercial se expandiu globalmente desde a década de 1980, impulsionada pela melhoria do acesso, pelo aumento da renda e pela demanda no Leste Asiático. Sri Lanka e Madagascar estão entre os países que permitem a pesca e a aquicultura, enquanto outras nações proibiram a prática. Em todo o mundo, 70% das pescarias de pepino-do-mar se tornaram superexploradas.
Redes criminosas e fiscalização
A demanda e as diferenças nas regras nacionais abriram espaço para grupos criminosos. Há relatos de que cartéis mexicanos e a Yakuza japonesa passaram a incluir pepinos-do-mar e outras criaturas marinhas em suas atividades.
As organizações podem atuar desde a extorsão de pescadores até o transporte ilegal pela fronteira. Também exploram regras ambientais frágeis e o desconhecimento sobre espécies e autorizações. Em alguns casos, os animais são declarados como carregamentos legais de peixe ou enviados para países onde o comércio é permitido.
Teale Phelps Bondaroff, especialista em crimes envolvendo pepinos-do-mar, defende o treinamento das autoridades. “Os pepinos-do-mar podem passar despercebidos”, disse. A atenção de agentes costuma estar voltada para drogas, armas e produtos de origem animal mais conhecidos, como marfim, chifres de rinoceronte e barbatanas de tubarão.
Proibição na Índia
O governo indiano começou a regulamentar a espécie na década de 1980 e proibiu sua pesca em 2001, depois de identificar os efeitos do comércio ilegal sobre as populações locais. A Índia passou a adotar as proteções mais rigorosas para os pepinos-do-mar. A captura de um exemplar pode levar a uma pena de sete anos de prisão, a mesma prevista para a caça ilegal de um tigre ou elefante.
Nas águas próximas às Ilhas Andamão, os animais prosperaram de modo geral. Já no oceano ao redor de Mianmar, cerca de 50 quilômetros ao norte, a guerra civil afetou os meios de subsistência e favoreceu a oferta de valores mais altos por cargas capturadas ilegalmente.
Com a redução dos animais nas águas locais, os caçadores seguem para o sul. Para isso, precisam escapar da guarda costeira, da marinha e da polícia indianas, além de evitar pescadores e populações de crocodilos. Eles sobrevivem dos peixes, fazem mergulho em apneia com mangueiras do tipo hookah e passam meses racionando diesel para garantir a viagem de volta.
Também enfrentam as autoridades de Mianmar e piratas interessados em roubar as cargas. A polícia regional de Andamão e Nicobar vem sendo treinada para procurar os grupos nas ilhas de manguezais.
Possíveis respostas
Pelo menos 50 pessoas foram presas no último ano. Entre elas havia pessoas com apenas 16 anos e outras na faixa dos 60. Algumas voltaram a praticar a atividade pela segunda ou terceira vez depois de cumprir pena. Ainda assim, o número de caçadores ilegais que chegam à região permanece estável ano após ano.
Bondaroff defende campanhas globais para alertar consumidores sobre os danos da extração ilegal e insustentável e para combater fraudes envolvendo frutos do mar. Entre as alternativas estão a criação, pela Índia, de pequenas áreas de pesca legal e a adoção de projetos comunitários de aquicultura, considerados mais fáceis de regulamentar e capazes de beneficiar os pescadores locais.
A cooperação entre governos e órgãos de fiscalização também é apontada como necessária para enfrentar os crimes financeiros ligados ao comércio de pepinos-do-mar.



