Uma força-tarefa de vacinação domiciliar tenta conter o surto de sarampo na Pensilvânia, onde quatro pessoas morreram por complicações da doença. Entre os principais alvos estão comunidades amish, que mantêm contato limitado com o sistema médico ocidental e têm baixa cobertura vacinal.
A enfermeira Dale Weiser, supervisora clínica do Departamento de Saúde do Condado de Chester, percorre até 48,3 km para visitar famílias em áreas rurais. Em algumas ocasiões, ela aplica dezenas de doses ao redor da mesa da cozinha, depois de conversar com os moradores e responder às dúvidas sobre a vacina.
“Muitas pessoas que encontro não têm plano de saúde”, afirmou Weiser. Segundo ela, parte dos moradores não é contra a imunização, mas não teve tempo ou facilidade para buscar atendimento.
Vacinação em ambientes privados
O Condado de Chester faz fronteira com o Condado de Lancaster, considerado o epicentro do surto. As autoridades locais adotaram estratégias de busca ativa usadas durante a pandemia de covid-19, como visitas de porta em porta, divulgação de informações e oferta de locais privados para a aplicação das doses.
Desde o começo do surto, o condado aplicou 538 vacinas contra o sarampo. Dessas, 340 foram administradas em ambientes privados, incluindo residências.
Jeanne Franklin, diretora do departamento de saúde, disse que algumas pessoas ligam para informar que não conseguem ir à clínica ou que preferem não tornar pública a decisão de se vacinar. Para as equipes, o contato direto ajuda a corrigir informações falsas e a estabelecer confiança.
A estimativa é que cerca de 90.000 amish vivam na Pensilvânia. Na região de Lancaster, apenas cerca de um quarto teria recebido a vacina contra o sarampo. Não há um texto religioso específico que desaconselhe a imunização, mas especialistas afirmam que a falta de contato regular com o sistema de saúde e as dificuldades de deslocamento reduzem o acesso às consultas.
Braxton Mitchell, epidemiologista genético da Faculdade de Medicina da Universidade de Maryland, disse que os amish são uma comunidade muito sociável. Por isso, quando o vírus chega a um grupo religioso, pode atingir pessoas não vacinadas em diferentes famílias.
“Eles estão sofrendo neste momento, e estamos tentando entrar em contato e criar conexões”, afirmou Weiser.
Mortes e desinformação
O surto é o mais mortal registrado nos Estados Unidos desde 1992. Entre as quatro vítimas estão dois recém-nascidos, uma jovem de 18 anos e uma mulher de 40 anos, conforme autoridades estaduais.
A baixa vacinação também é associada à circulação de teorias falsas sobre a segurança do imunizante. Weiser relatou ter ouvido dúvidas sobre a presença de metais pesados ou chips de computador na vacina, inclusive entre pessoas de uma comunidade com acesso limitado a computadores.
Franklin diferencia os moradores que se opõem de forma direta às vacinas daqueles que desconhecem o assunto ou têm uma visão cultural diferente. Para ela, os dois grupos apresentam disposição distinta para discutir o tema e eventualmente mudar de posição.
O surto também provocou conflito entre autoridades de saúde estaduais e federais. O secretário de Saúde, Robert F. Kennedy Jr., contestou nas redes sociais pelo menos uma das mortes anunciadas inicialmente, que envolviam dois bebês.
O governador Josh Shapiro criticou Kennedy e afirmou que ele estava disseminando informações errôneas. Stephen Diamantoni, legista do Condado de Lancaster, declarou que um dos bebês morreu de ruptura do baço, e não diretamente de sarampo. Médicos disseram que a infecção deixou a criança vulnerável, já que a doença pode aumentar o baço e facilitar rupturas.
William Moss, especialista em doenças infecciosas pediátricas da Escola de Saúde Pública Johns Hopkins Bloomberg, afirmou que o sarampo contribuiu significativamente para a morte da criança.
Especialistas também criticaram uma ordem executiva aprovada por Trump que recomenda dividir a vacina contra o sarampo em três doses separadas. Para médicos, a medida é desnecessária e pode elevar os custos de uma vacina considerada segura.
As equipes de saúde temem que o início do ano letivo aumente as oportunidades de transmissão do vírus. Weiser afirmou que a situação pode exigir esforços durante seis a doze meses e que a Pensilvânia já enfrenta transmissão comunitária.



