Quase 900 pessoas, em sua maioria crianças, podem ter morrido em Bangladesh em decorrência de um surto de sarampo iniciado em março. Entre 15 de março e 6 de setembro de 2026, o país registrou 92 casos suspeitos da doença por 100 mil habitantes e 11 casos confirmados por 100 mil habitantes, considerando uma população estimada em 178 milhões.
O surto ocorreu depois de anos de queda na cobertura vacinal infantil. Bangladesh tinha como meta eliminar o sarampo e a rubéola até 2020, mas a pandemia interrompeu a vacinação de rotina e deixou grupos de crianças sem proteção completa. A cobertura chegou a 87%.
A hesitação vacinal também pode ter contribuído. Durante a pandemia de Covid-19, quase metade da população de Bangladesh demonstrava receio de se vacinar. Essa desconfiança pode ter alcançado a vacina contra sarampo e rubéola, levando pais a não imunizar os filhos.
Campanha emergencial
Em março de 2026, o grupo consultivo de vacinação do país aprovou uma campanha emergencial para crianças de seis meses a cinco anos. Foram previstas medidas adicionais para bebês de seis a oito meses.
Normalmente, as crianças recebem duas doses da vacina contra o sarampo. Durante o surto, porém, a Organização Mundial da Saúde recomendou uma dose adicional para todas as crianças da faixa etária definida, mesmo para aquelas que já haviam sido vacinadas. A medida buscou reduzir a transmissão e evitar casos graves.
A campanha começou no início de abril em 30 subdistritos de 18 distritos prioritários e foi ampliada para todo o país ainda naquele mês. Foi a primeira campanha nacional contra o sarampo desde 2020. Os serviços de vacinação de rotina foram prejudicados pela pandemia e pela instabilidade política.
Crianças com suspeita ou confirmação de sarampo também receberam vitamina A. A suplementação é um tratamento de suporte para infecções ativas ou suspeitas e reduz o risco de doença grave e morte. Uma campanha nacional de vitamina A já tinha sido feita em 2025.
A Diretoria-Geral de Serviços de Saúde de Bangladesh mobilizou equipes distritais de resposta rápida. Hospitais adicionaram leitos de isolamento e reforçaram o controle de infecções. Em algumas unidades, enfermarias pediátricas ficaram lotadas de crianças com febre alta, erupções cutâneas e dificuldades respiratórias.
O Unicef, a OMS e a Gavi apoiaram a resposta do governo. A Save the Children promoveu ações de conscientização, com visitas de porta em porta e atividades com grupos de mães e escolas para incentivar o cadastro e a vacinação das crianças.
Risco de novos surtos
O sarampo é altamente contagioso e se espalha pelo ar por meio da tosse ou do espirro. Para manter a doença sob controle, cerca de 95% da comunidade precisa estar vacinada. Uma pequena queda na cobertura pode criar grupos desprotegidos e permitir que um caso importado inicie novas transmissões.
A OMS informou que Cabo Verde, Maurício e Seychelles foram os primeiros países da África Subsaariana a eliminar o sarampo e a rubéola. O Zimbábue enfrentou um grande surto em 2022, contido com campanhas intensivas de vacinação.
As Américas interromperam a transmissão contínua e autóctone do sarampo em 2016. Casos registrados na Venezuela em 2018 e no Brasil em 2019 interromperam esse status. A região voltou a ser considerada livre da transmissão em 2024, mas perdeu essa condição em novembro de 2025, depois do surgimento de casos no Canadá.
A manutenção da eliminação depende da vacinação de rotina, da vigilância e da capacidade de resposta rápida a novos surtos. Em Bangladesh, os riscos continuam caso crianças deixem de receber doses de reforço, aglomerações persistam ou boatos afastem famílias dos centros de vacinação.



