SÃO PAULO — A Avibras, fabricante brasileira de sistemas de defesa, terá o controle assumido pelos irmãos Joesley e Wesley Batista a partir de outubro. A aquisição foi fechada em 21 de agosto pela Globe Investimentos, family office dos Batista, e aprovada pelo Cade no dia 14 passado. A transição começa na próxima semana.
A operação não foi feita pela J&F, holding dos irmãos. Os Batista lideraram um aporte estimado em R$ 300 milhões no fundo Brasil Crédito, que direcionou os recursos para a Avibras. Os detalhes financeiros da compra do controle não foram revelados.
A companhia atravessa uma crise iniciada com o pedido de recuperação judicial, em março daquele ano, e agravada pela greve de cerca de 1.400 trabalhadores, iniciada em 9 de setembro. A paralisação foi organizada pelo Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos e Região.
Recuperação e novo comando
A Avibras acumulou uma dívida estimada em mais de R$ 600 milhões, incluindo R$ 230 milhões em débitos trabalhistas. A empresa teve seu último grande sucesso de exportação em 2012, com a venda do sistema de artilharia por saturação de mísseis Astros-2 para a Indonésia. Negociações com a Arábia Saudita e as Filipinas não avançaram.
Também fracassou a venda ao Qatar dos sistemas Astros e do MTC (Míssil Tático de Cruzeiro). O país havia assinado um contrato de US$ 820 milhões, equivalente a R$ 5,2 bilhões em valores corrigidos, em 2018. O acordo acabou vetado principalmente pela pressão de Israel sobre o governo de Jair Bolsonaro, segundo integrantes daquela gestão.
A reestruturação separou a empresa saneada de uma massa falida. Em agosto de 2024, o Brasil Crédito comprou da empresa indonésia PDS um débito estimado em cerca de R$ 220 milhões. O plano de recuperação judicial alternativo foi aprovado em maio de 2025, apesar de questionamentos de credores como o banco Safra.
A relação dos Batista com a Indonésia aproximou Joesley da Avibras. Ele afirmou que conheceu a oportunidade por indicação de pessoas no país asiático, onde também investe em energia. A alternativa brasileira ganhou força depois que Lula vetou soluções envolvendo investidores estrangeiros. Com isso, ficaram pelo caminho uma venda quase concluída em 2024 para a australiana DefendTex, o Grupo Edge, dos Emirados Árabes, e a chinesa Norinco.
O ministro da Defesa, José Múcio Monteiro, reintegrou a Avibras à categoria de empresa estratégica de defesa, que oferece vantagens competitivas em financiamentos estatais. A fábrica foi reaberta em maio, sob a presidência de Sami Hassuani, que comandou a companhia de 2008 a 2016. Em julho, Hassuani acompanhou Lula na inauguração oficial.
Produção e exportações
Um acordo trabalhista envolveu 850 demissões de trabalhadores remanescentes e 450 readmissões. Hassuani havia estabelecido como meta chegar a 2028 com mil funcionários e faturamento de R$ 500 milhões, com foco em exportações. O plano inclui produtos como o Astros-2 e o MTC, além de um novo míssil balístico, drones e outros sistemas.
Joesley decidiu assumir a gestão da empresa em meados deste ano, depois de realizar sondagens sobre seu futuro. A mudança pode levar à revisão do plano elaborado por Hassuani. A intenção é convidá-lo a permanecer como CEO da nova Avibras.
Para o conselho de administração, Joesley convidou Bruno Dantas, que deixará a presidência do TCU (Tribunal de Contas da União). Dantas presidiu por dois anos e meio a Intosai, organização conhecida como a “ONU dos TCUs” mundiais, e deverá trabalhar na estruturação de novas exportações.
Entre os mercados potenciais estão países que buscam diversificar fornecedores. O Astros-2 já é operado por Arábia Saudita, Malásia e Indonésia. A Índia, onde os Batista vendem frango congelado, também é apontada como cliente potencial.
A Avibras foi criada em 1961 por engenheiros do ITA (Instituto Tecnológico da Aeronáutica), de São José dos Campos (SP), como empresa de aviação e produtos aeroespaciais. A sede fica em Jacareí. A companhia passou a se concentrar em sistemas de defesa, como mísseis, e ganhou projeção internacional nos anos 1980 ao fornecer armas ao Iraque de Saddam Hussein.
O Exército opera 44 lançadores Astros-2 que precisam de manutenção. Um novo teste da campanha de certificação do MTC foi realizado com sucesso no Rio na semana retrasada. Os R$ 300 milhões destinados aos projetos de mísseis da Avibras, anunciados no começo deste ano, foram contingenciados em agosto.



