LONDRES — A China abriu vantagem no desenvolvimento e na fabricação de baterias de íons de sódio, uma tecnologia que usa sais dissolvidos em água para transportar íons entre os eletrodos. O avanço é visto como uma alternativa às baterias de íons de lítio, usadas em veículos elétricos e sistemas de armazenamento de energia.
A capacidade das gigafábricas chinesas de baterias de íons de sódio em operação ou planejadas já passa de 400 GWh (gigawatts-hora). No restante do mundo, o total é de 11 GWh, segundo dados da CRU.
A montadora Changan desenvolve o que pode ser o primeiro veículo elétrico produzido em massa com essa tecnologia, usando células fabricadas pela CATL. Em testes iniciais, a empresa afirmou que as baterias carregaram 6% mais rápido que as convencionais de lítio a -20 °C e 21% mais rápido a -10 °C.
Escala chinesa e dificuldades no Ocidente
A China também concentrou a atividade de patentes relacionadas às baterias de íons de sódio em 2025. A CATL foi a empresa que mais apresentou pedidos, segundo a Volta Foundation. Dados da PitchBook indicam ainda que os grupos chineses Shunwei Capital e Cowin Capital estiveram entre os investidores de capital de risco mais ativos no financiamento de start-ups do setor na última década.
Max Reid, chefe de custos de baterias da CRU Group, disse que o Ocidente perdeu a oportunidade de liderar essa tecnologia. Segundo ele, ampliar a cadeia de fornecimento exigiria “US$ 100 (R$ 511 milhões) em investimentos por fábrica, no mínimo”, e não há investimentos desse porte fora da China.
Start-ups europeias e americanas apostaram nas baterias de sódio por elas poderem ser fabricadas com materiais abundantes, incluindo água do mar. Já as baterias de lítio dependem de metais como grafite e cobalto, cuja produção é dominada pela China. Várias empresas ocidentais, porém, encerraram as atividades.
A Natron Energy, da Califórnia, fechou no ano passado, pouco depois de anunciar uma gigafábrica. A empresa tinha a trading de commodities Mercuria entre seus principais investidores. Também encerrou as atividades a Bedrock Materials, derivada da Universidade Stanford e cofundada por um ex-engenheiro da Tesla.
Empresas tentam criar uma cadeia própria
GM e Tiamat Energy investiram na tecnologia. Na Alemanha, a Moll Batterien constrói uma fábrica que, segundo a empresa, será a primeira unidade industrial europeia para produzir células e baterias de íons de sódio. A produção deve começar no próximo ano.
A GM também firmou parceria com a Peak Energy para desenvolver baterias de próxima geração para armazenamento de energia e planeja fabricá-las em larga escala a partir de 2028. Inicialmente, a Peak pretende usar células importadas da Ásia, incluindo da China. Kurt Kelty, chefe da área de baterias da GM, afirmou que, com o aumento dos volumes, os materiais deverão ser adquiridos na América do Norte.
A americana Alsym Energy informou ter obtido compromissos comerciais de 19 gigawatts-hora nos últimos meses. Parte das células foi produzida nos EUA e outra parte, no Reino Unido.
As baterias de sódio têm menor densidade energética que algumas concorrentes de lítio, o que reduz a distância percorrida por veículos antes da recarga. Em contrapartida, apresentam melhor desempenho e maior segurança em temperaturas extremas. Essas características podem favorecer veículos menores e aplicações de armazenamento de energia.
O UBS prevê que a paridade de custos com as baterias de íons de lítio seja alcançada até 2027. O preço das células de sódio pode cair até 30% até 2030, segundo a instituição, com crescimento do setor estimado até 2035.
A CRU avalia que as baterias de água salgada devem complementar as de lítio, e não substituí-las. A CATL e o grupo holandês Alfen anunciaram em julho uma parceria para instalar 5 gigawatts-hora de sistemas de armazenamento de energia com baterias de íons de sódio na Europa a partir de 2027.



