SÃO PAULO — Karina Ferreira da Gama, produtora do filme “Dark Horse”, sobre Jair Bolsonaro, pagou R$ 102.190 em dinheiro vivo por um SUV híbrido em janeiro de 2025. A transação foi comunicada ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) porque o valor foi quitado integralmente em espécie, conforme decisão do Supremo Tribunal Federal (STF).
A compra ocorreu em 13 de janeiro de 2025, na concessionária BYD Dahruj, em São Paulo. O veículo é um BYD Song Plus 1.5 16V automático híbrido, modelo 2025.
A comunicação ao Coaf foi registrada no documento do ministro Flávio Dino, que autorizou medidas em uma investigação da Polícia Federal. A decisão afirma que o registro foi motivado pelo pagamento com “valores totais em espécie”.
O montante ultrapassa os limites regulatórios que tornam automática a comunicação de determinadas operações: R$ 50 mil para transações bancárias e R$ 100 mil em cartórios. O envio ao Coaf não significa, por si só, que a compra seja crime. No documento, o pagamento em dinheiro aparece como informação financeira relevante para a investigação.
A Polícia Federal também registrou que o veículo tinha valor de R$ 184.858 na Tabela Fipe. A diferença entre a cotação e o preço pago foi de R$ 82.668. A decisão não explica a razão dessa diferença e apenas apresenta os dois valores na análise financeira.
Relação com a investigação
Karina Gama é sócia da Go Up Entertainment Ltda., empresa apontada na decisão como produtora de “Dark Horse”. Ela também aparece no documento como presidente do Instituto Conhecimento Brasil (ICB) e da Associação Nacional de Cultura (ANC).
Segundo a decisão, o ICB recebeu recursos relacionados a emendas parlamentares de autoria do então deputado Mário Frias. A investigação apura a destinação desses recursos e as relações entre pessoas e empresas ligadas ao caso.
O documento afirma ainda que a Go Up recebeu recursos de pessoas e empresas relacionadas ao núcleo investigado, o que pode indicar “possível integração patrimonial e operacional” com entidades beneficiadas por emendas parlamentares.
A Polícia Federal cumpriu 49 mandados de busca e apreensão em operação relacionada ao financiamento do filme “Dark Horse”. A ação, batizada de “Make Up”, foi deflagrada pela PF e pela Controladoria-Geral da União (CGU). Não houve mandados de prisão, e a empresa Go Up não foi alvo das medidas.
A investigação apura um suposto esquema de desvio de recursos públicos provenientes de emendas parlamentares. Segundo a PF, agentes públicos e privados teriam direcionado valores repassados a uma organização da sociedade civil para empresas subcontratadas irregularmente, sem comprovação de que os serviços foram prestados.
A auditoria da CGU apontou suspeita de desvio da emenda de R$ 2 milhões indicada por Frias para entidades de Karina, incluindo gastos não comprovados. Os crimes investigados são peculato, falsidade documental, lavagem de dinheiro, organização criminosa e crimes licitatórios.
A operação também tem como alvo o deputado federal Mario Frias, que atua como roteirista e produtor-executivo do filme. Em manifestação ao STF, ele negou que as emendas enviadas para organizações não governamentais ligadas à produtora tenham sido destinadas a “qualquer produção cinematográfica”.
Os citados na operação ainda não haviam se pronunciado, conforme o texto da decisão e das informações sobre o caso.



