O avanço da inteligência artificial pode alterar não apenas os empregos, mas também a forma como crianças e adultos devem ser educados. Essa é a questão central do livro What Should My Children Do?: How to Flourish in the Age of AI, de Daniel Susskind, especialista em trabalho e tecnologia com cargos em Oxford e Stanford.
A obra combina preocupação e confiança ao discutir quais atividades continuarão sendo realizadas por seres humanos. Para Susskind, não é possível garantir que o conselho dado aos filhos em um ano seguirá adequado no ano seguinte. A recomendação é aproveitar as oportunidades trazidas pela IA, desenvolver o pensamento crítico e reduzir as distrações provocadas pelas redes sociais.
Trabalho e formação profissional
O autor questiona a ideia de que a expansão dos empregos de colarinho branco esteja assegurada. A inteligência artificial é especialmente eficiente em tarefas desse tipo, e a formação acadêmica deixou de ser um indicador confiável para prever se uma atividade poderá ser automatizada.
Susskind defende que o trabalho de colarinho branco incorpore métodos tradicionais de capacitação, como o acompanhamento de profissionais experientes e a aprendizagem prática. Para quem está no início da carreira, a IA generativa poderia oferecer treinamento por meio de simulações semelhantes às usadas em áreas como a engenharia e a Fórmula 1.
A proposta também inclui uma mudança na educação. O autor afirma que saber utilizar a IA de forma eficaz se tornou uma competência fundamental. Um currículo específico deveria abordar a história da tecnologia, seus pioneiros, questões éticas e as limitações dos diferentes modelos. O objetivo seria formar pessoas capazes de avaliar criticamente os resultados, em vez de confiar neles de maneira automática.
Susskind concorda com o economista americano Tyler Cowen que um terço de cada curso universitário deveria ser dedicado à IA. Quando lecionava economia para estudantes de graduação em Oxford, ele reservava cerca de um terço do tempo ao ensino de matemática, como forma de desenvolver competências aplicáveis a outras áreas.
Habilidades humanas e concentração
Mesmo com o avanço da tecnologia, o autor considera que as pessoas continuarão preferindo atletas e músicos humanos, juízes e políticos humanos para decisões morais, objetos feitos à mão e a empatia humana em áreas como saúde, assistência social, psicoterapia, orientação espiritual e ensino. Ele observa que seres humanos ainda disputam torneios de xadrez, 30 anos depois de o Deep Blue derrotar Kasparov.
O desafio, segundo Susskind, é ensinar o uso da IA sem deixar de lado leitura, escrita, matemática e análise científica. Ele também aposta que a tecnologia poderá transformar a aprendizagem personalizada ao longo da vida.
Outro ponto destacado é a necessidade de fortalecer a concentração das crianças. Um terço dos americanos de 13 a 17 anos está nas redes sociais quase constantemente. O autor compara essa preocupação a receios antigos provocados pela implantação do sistema postal universal na Inglaterra, em 1840, quando havia temor de interrupções causadas por 12 entregas de cartas por dia.
Para Susskind, porém, as plataformas atuais criam uma dificuldade diferente: a distração faz parte do modelo de negócios. Por isso, ele rejeita a ideia de preparar os jovens apenas para funções que a IA ainda não consegue desempenhar. A velocidade de evolução da tecnologia tornaria essa estratégia impraticável e reduziria o significado de ser humano.
A orientação final do autor é concentrar a educação em “quem você é, não no que você faz”. Nesse sentido, a escola não deveria apenas formar trabalhadores mais produtivos, mas também cidadãos melhores.



