O livro “Os Safra: Uma história”, de Robson Viturino, reconstrói a trajetória de uma família que passou por Aleppo, no século 19, chegou ao Líbano e consolidou negócios bancários no Brasil. A narrativa se concentra nos irmãos Edmond (1932-1999), Moise (1934-2014) e Joseph (1938-2020), que alcançaram o maior nível de riqueza e influência entre os Safra.
Jornalista e psicanalista, Viturino afirma que não escreveu uma biografia empresarial baseada na celebração do sucesso. A obra apresenta, lado a lado, a proximidade dos banqueiros com autoridades e as acusações de que nem sempre teriam atuado dentro das regras; a busca por discrição e o desejo de reconhecimento; além de episódios de generosidade e de conflitos com funcionários e executivos.
Da Síria ao Brasil
Os Safra mantinham negócios em Aleppo antes de se mudar para Beirute, no Líbano. Em 1920, Jacob Safra, pai de Edmond, Moise e Joseph, fundou um banco que levava seu nome. A instituição atendia judeus sefarditas e integrantes de comunidades judaicas que haviam se refugiado na cidade.
Jacob também atuava nos mercados de ouro e câmbio. A família deixou o Líbano no início dos anos 1950, depois do aumento da hostilidade contra a comunidade judaica, e parte dela se estabeleceu no Brasil.
A expansão dos negócios ganhou força nos anos 1970. O relacionamento com integrantes da área econômica do governo, entre eles Delfim Netto e Ernane Galvêas, também aparece como parte da trajetória. Joseph Safra se tornou interlocutor de Galvêas, que foi presidente do Banco Central.
Confiança, desconfiança e disputas
O livro explora a tensão entre a confiança necessária para um banco captar recursos e a desconfiança exigida para decidir a quem emprestar. Edmond defendia que conceder dinheiro sem informações detalhadas sobre o devedor era um risco. Joseph associava o sucesso bancário à escolha de não atender a todos os pedidos de crédito.
Com o crescimento da fortuna, vieram disputas pelo controle do banco. Primeiro, entre Joseph e Moise, na primeira década deste século. Mais tarde, o conflito envolveu os filhos de Joseph. Para Viturino, embora os valores envolvidos fossem bilionários, a origem dessas brigas tem um aspecto comum às disputas familiares.
A morte de Edmond
A morte de Edmond Safra, em 1999, em Monte Carlo, ocupa posição central na narrativa. Ele morreu no apartamento de cobertura onde vivia com a mulher, Lily, depois de se refugiar em um quarto de segurança durante um incêndio.
O episódio inicialmente levantou suspeitas sobre o enfermeiro do banqueiro, a máfia russa e terroristas palestinos. A Justiça de Mônaco concluiu que o enfermeiro havia ateado fogo a uma cesta de lixo e simulado uma invasão para tentar ser reconhecido como protetor de Edmond.
Segundo a reconstrução apresentada no livro, falhas da polícia de Mônaco dificultaram a ação dos bombeiros. O chefe da segurança, que tinha a chave capaz de abrir a porta do quarto pelo lado de fora, foi impedido de entrar. Edmond permaneceu trancado, desconfiado das garantias de segurança, e morreu após inalar fumaça.



