BUENOS AIRES — O presidente argentino Javier Milei tenta posicionar a Argentina como um destino para investimentos em inteligência artificial sem regulamentação antecipada. O plano inclui atrair grandes data centers para a Patagônia e permitir empresas administradas integralmente por agentes de IA.
Na Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York, Milei afirmou que a Argentina estaria na vanguarda da liberdade na inteligência artificial e reiterou o compromisso de não criar regras antes do avanço da tecnologia. Ele também propôs a criação de empresas não humanas, cujas operações poderiam ser realizadas por sistemas de IA.
O projeto foi apresentado como uma forma de conceder incentivos fiscais a negócios administrados por agentes de IA. Pela versão atualizada, essas empresas ainda precisariam manter um responsável humano, que teria a responsabilidade jurídica final. O ministro argentino responsável pela desregulamentação, Federico Sturzenegger, disse que o governo tenta aprovar a proposta no Congresso.
Empresas e data centers
A ideia das empresas não humanas foi atribuída por Sturzenegger ao empreendedor de tecnologia Emiliano Kargieman. Ele afirmou que a Argentina, com uma força de trabalho de cerca de 15 milhões de pessoas, poderia ter milhões de robôs gerando receita e ampliar seu papel econômico no mundo.
Especialistas em direito e integrantes da oposição questionaram a proposta. Alan Daitch, especialista argentino em IA, afirmou que, embora a tecnologia não possa ser responsabilizada, os efeitos de seus erros atingem pessoas. O historiador Yuval Noah Harari disse que o modelo poderia levar a um Estado de IA fora do alcance da legislação criminal.
A Patagônia é apresentada pelas autoridades como local adequado para data centers por ter baixa densidade populacional, clima frio e oferta crescente de energia associada às reservas de petróleo e gás de xisto. A Argentina, porém, ainda está atrás de polos regionais como Brasil e Chile e enfrenta problemas na rede elétrica, controles cambiais e custos elevados para construir infraestrutura de transmissão.
No ano passado, a OpenAI assinou uma carta de intenções com uma empresa argentina para estudar um projeto de data center para IA. O incentivo fiscal proposto por Milei ainda precisa ser aprovado pelo Senado.
Uso político da tecnologia
Milei também usa imagens geradas por IA em sua comunicação. Seu alter ego digital já apareceu como Homem-Aranha, ao lado de Lionel Messi e em uma conversa com Domingo Faustino Sarmiento, presidente argentino que morreu em 1888.
A equipe de comunicação afirma que as imagens servem para ampliar a presença do presidente na internet. Em janeiro, porém, Milei compartilhou uma imagem em que aparecia ao lado de bombeiros durante incêndios na Patagônia, embora não tivesse viajado até a região.
Santiago Pacheco, responsável pela produção desse conteúdo, reconheceu que a separação entre sátira e engano está menos clara e defendeu atenção aos riscos do uso da tecnologia.



