OIAPOQUE — A exploração de petróleo em alto-mar pela Petrobras divide moradores de Oiapoque, no Amapá. Enquanto parte da população espera empregos, receitas e novos negócios, comunidades indígenas e pescadores temem que um eventual vazamento atinja rios, prejudique a pesca e afete o modo de vida local.
A aldeia Manga, onde vive o cacique indígena Wagner Karipuna, fica a cerca de 20 quilômetros do centro de Oiapoque, município na fronteira com a Guiana Francesa. Karipuna, de 57 anos, acompanha com preocupação o rio Curipi, que passa ao lado da aldeia e é utilizado por uma comunidade de 1.800 pessoas.
A Petrobras iniciou a exploração na região há um ano. Em agosto, a empresa informou ter identificado sinais de petróleo em um poço localizado a cerca de 175 quilômetros da costa do Amapá. A estatal declarou que suas análises não indicam probabilidade de o petróleo chegar à costa em caso de vazamento.
“Não existe risco zero na exploração em alto-mar”, disse Jean Paul Prates, que comandou a Petrobras entre 2023 e 2024 e atualmente preside o Centro de Estratégias em Recursos Naturais e Energia. Para ele, trata-se de um risco de baixa probabilidade, mas com consequências potencialmente graves.
Karipuna afirmou estar desapontado com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que visitou a região depois do anúncio da Petrobras e classificou o petróleo como “passaporte para o futuro”. O presidente busca a reeleição em 4 de outubro. O cacique também relaciona os impactos atuais da exploração ao barulho de aviões e helicópteros, que, segundo ele, afasta aves e animais de caça.
Pesca e comunidades indígenas
As preocupações também são compartilhadas por Joelso Mendonça, vice-presidente de uma organização que reúne quase 400 pescadores tradicionais. “Se houver um vazamento de petróleo, ninguém vai querer comprar nosso peixe”, afirmou o pescador, de 50 anos.
A Petrobras informou manter diálogo contínuo com a sociedade civil e com comunidades indígenas. Sobre o tráfego aéreo, a empresa disse ter feito ajustes após consultas com lideranças indígenas.
A possibilidade de crescimento econômico, porém, atrai novos moradores. Jacqueline Cadete, pastora evangélica de 45 anos, mudou-se para Oiapoque no fim de 2025, depois de viver na Guiana Francesa e na França metropolitana. Ela disse ter sido atraída pelas oportunidades associadas ao petróleo.
Um estudo do Observatório Nacional da Indústria estima que mais de 50 mil empregos poderiam ser criados no Amapá. Os royalties que a Petrobras deverá pagar quando a produção começar também podem representar uma receita considerável para as autoridades locais.
A presidente da Petrobras, Magda Chambriard, afirmou em agosto que a produção não deve começar antes de seis ou sete anos. Até lá, a cidade já enfrenta pressão sobre sua infraestrutura e seus serviços.
Crescimento e falta de infraestrutura
O prefeito Inácio Monteiro Maciel se diz muito otimista com o futuro, mas reconhece que Oiapoque terá de praticamente começar do zero em infraestrutura e políticas sociais. Mais da metade dos cerca de 28 mil habitantes registrados no Censo de 2022 recebe o Bolsa Família.
Segundo o prefeito, o fluxo de novos moradores se intensificou desde o início das perfurações. Ele estima que 40 mil a 45 mil pessoas já vivam no município.
O aumento da especulação imobiliária levou famílias a deixar o centro e buscar bairros periféricos, onde as condições são frequentemente precárias. No bairro Nova Conquista, Thais Pereira de Souza, de 32 anos, vive com o marido, os dois filhos e a nora grávida em uma pequena casa sem água ou eletricidade. A família ocupa um único cômodo, depois de não conseguir mais pagar o apartamento onde morava no centro.
Thais espera que a vida melhore com o petróleo. Lilma Campos, presidente da Associação Comercial e Industrial de Oiapoque, prevê uma mudança radical, mas afirma que ainda não é possível saber se a cidade se transformará na “nova Dubai”.



