A venda global de títulos do Tesouro se intensificou nesta quinta-feira (24), em meio à alta do petróleo e ao aumento das expectativas de inflação. O rendimento dos papéis americanos de dez anos chegou a 5,15%, o maior nível desde 2007, enquanto o retorno dos títulos de 30 anos alcançou 5,443%, maior patamar desde 2004.
Os rendimentos sobem quando os preços dos títulos caem. Na quarta-feira, a taxa dos papéis de dez anos havia atingido 5,132%, após dados econômicos fortes e a valorização do petróleo levarem investidores a apostar em uma elevação mais rápida dos juros pelo Federal Reserve, o banco central dos Estados Unidos.
O petróleo Brent, referência global, subia 3,21% na manhã de quinta-feira, para US$ 106,39 por barril. A alta ocorreu depois de um avanço de quase 4% na quarta-feira, em um cenário de declarações firmes dos Estados Unidos e do Irã na Assembleia Geral da ONU.
Pressão sobre mercados e governos
A queda dos títulos pressionou as Bolsas. Na China, o índice de Xangai recuou 1,22%, enquanto o CSI300, que reúne as maiores companhias listadas em Xangai e Shenzhen, caiu 1,73%. Foi a maior baixa diária das Bolsas chinesas em um mês.
A movimentação também alcançou outros mercados de dívida. O rendimento dos títulos do governo japonês de dez anos subiu 0,1 ponto percentual, para 3,08%, o maior nível desde 1996. Na Alemanha, o rendimento do Bund de dez anos avançou 0,02 ponto percentual, para 3,57%. O retorno dos gilts britânicos com o mesmo vencimento também aumentou 0,02 ponto percentual, para 5,38%.
A alta dos rendimentos eleva o custo de financiamento dos governos em um momento de aumento agressivo dos gastos. Na quarta-feira, a OCDE classificou a disparada das taxas como uma “grande preocupação” para as finanças públicas.
Para Mohit Kumar, da Jefferies, a alta foi agravada pela necessidade de fundos de hedge de desfazer apostas de que os títulos de curto prazo teriam desempenho superior. “Parece haver muita gente sofrendo no mercado de renda fixa”, afirmou.
Expectativas para os juros americanos
Operadores de derivativos passaram a precificar uma probabilidade superior a 70% de que o Federal Reserve eleve os juros na próxima reunião, em outubro. No início da quarta-feira, essa estimativa estava em cerca de 50%.
A mudança ocorreu depois que dados mostraram que a atividade empresarial nos Estados Unidos acelerou neste mês no ritmo mais intenso em cinco anos. Andrew Pease, da Russell Investments, afirmou que os mercados reagiram às mudanças nas expectativas sobre os fatores que impulsionam a economia americana.
O aumento dos rendimentos desde o início da guerra no Irã também ampliou as preocupações com o excesso de oferta de dívida de longo prazo. O movimento ocorre em meio à emissão global recorde e à manutenção de grandes déficits pelas principais economias.
Richard Yetsenga, do ANZ, disse que os planos dos Estados Unidos de restringir as exportações de diesel contribuíam para a alta dos rendimentos globais. Para Eric Robertsen, do Standard Chartered em Singapura, houve um movimento correlacionado de alta das taxas.
Em nota divulgada na quinta-feira, Mansoor Mohi-uddin, do Bank of Singapore, afirmou que o mercado de títulos foi afetado por vários fatores, entre eles as declarações de Estados Unidos e Irã na ONU e o alerta de Michael Barr, do Federal Reserve, de que os juros talvez precisem voltar a subir.
Mohi-uddin também relacionou a alta dos rendimentos ao forte crescimento impulsionado pela inteligência artificial e aos grandes déficits fiscais dos Estados Unidos, e não às expectativas de inflação.



