A eleição presidencial de 2026 pode ter o primeiro turno com o menor número de debates televisionados desde 1998. A Record cancelou o encontro previsto para domingo (27), depois que Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) não confirmaram presença.
Até agora, houve apenas um debate, realizado pela Band em 23 de agosto. Participaram Ronaldo Caiado (PSD), Renan Santos (Missão) e Augusto Cury (Avante). Romeu Zema (Novo) desistiu no dia do evento, citando a ausência dos dois líderes das pesquisas e a mudança na data do encontro.
A Globo confirmou outro debate para 1º de outubro, três dias antes da votação. A presença de Lula e Flávio Bolsonaro ainda não está definida. Se o programa for mantido, o primeiro turno terá dois confrontos.
Ausência dos líderes
Na pesquisa Datafolha mais recente mencionada no levantamento, Lula aparece com 39% das intenções de voto, enquanto Flávio tem 36%. Com margem de erro de dois pontos para mais ou para menos, os dois estão tecnicamente empatados. Augusto Cury registra 6%, Ronaldo Caiado tem 4%, Renan Santos aparece com 3% e Romeu Zema, com 2%.
O cientista político Carlos Melo, professor do Insper, afirma que a decisão de não participar segue um cálculo de risco. Para candidatos próximos de 40% das intenções de voto, haveria pouco a ganhar em um confronto com concorrentes posicionados atrás nas pesquisas e interessados em atacar os líderes.
"Com quem está com 40%, você pode ganhar muito pouco e perder muito", diz Melo. Na avaliação dele, um erro ou uma resposta mal recebida pode afetar a posição do candidato que lidera.
A campanha de Flávio tem evitado debates sem Lula para impedir que o senador se torne o principal alvo dos demais concorrentes. Lula, por sua vez, argumentou que estaria em desvantagem diante de cinco adversários e que Romeu Zema e Renan Santos não precisariam ter sido convidados segundo a legislação eleitoral.
Histórico e avaliação dos especialistas
O primeiro turno teve três debates em 2002 e em 2006. O número subiu para sete em 2010, caiu para cinco em 2014, voltou a sete em 2018 e ficou em três em 2022. Desde 2002, nenhuma eleição presidencial teve menos de três encontros nessa etapa.
Em 1998, não houve debates televisionados. Fernando Henrique Cardoso, então presidente e favorito à reeleição, recusou-se a participar dos confrontos e venceu no primeiro turno. Em 2006, Lula faltou aos três debates do primeiro turno, mas participou dos quatro encontros do segundo turno contra Geraldo Alckmin.
Para Daniela Costanzo, cientista política e pesquisadora do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento), a redução acompanha a transformação das campanhas, cada vez mais digitais. Ela também relaciona o fenômeno à menor quantidade de eleitores ainda indecisos ou em disputa.
Os dois especialistas avaliam que os debates perderam qualidade. Melo citou episódios de desrespeito e virulência no encontro da Band. Costanzo afirmou que os programas tratam cada vez menos de propostas de políticas públicas e podem estar deixando de cumprir a função de confrontar ideias.
Na avaliação de Melo, o prejuízo é do eleitor, que pode decidir com menos informação. Costanzo acrescenta que, sem o confronto direto, o público fica mais dependente de outras fontes e do conteúdo entregue pelos algoritmos.



