A esquerda passou a assumir no Congresso parte do debate político sobre a indústria de jogos eletrônicos, uma área que durante anos esteve mais associada à direita e a Jair Bolsonaro. O movimento ocorre antes das eleições e inclui propostas sobre o fim das mídias físicas, a preservação de jogos e a economia criativa.
Erika Hilton (PSOL-SP) acionou a Secretaria Nacional do Consumidor para pedir uma investigação sobre a Sony. A empresa anunciou que pretende deixar de produzir jogos em mídia física para novos lançamentos de PlayStation a partir de 2028. Para críticos, a migração para a nuvem afeta consumidores e a preservação da memória dos games.
Jandira Feghali (PC do B-RJ) apresentou um projeto para impedir que compradores percam o acesso a jogos, especialmente aos títulos que dependem de servidores para funcionar. As duas parlamentares passaram a liderar o debate no Legislativo sobre o tema.
“É uma disputa. E a esquerda nunca fez isso dessa mesma forma”, afirmou Isabela Kalil, professora da Fespsp e coordenadora do Laboratório de Etnografia Digital. Para ela, a identificação entre o universo gamer e a direita não representa toda a comunidade.
Pedro Zambon, pesquisador e fundador da Savegame.dev, disse que a esquerda tem demonstrado mais disposição para tratar da pauta, enquanto a direita teria se apropriado dela de maneira superficial.
Relação com Bolsonaro e Lula
A aproximação de nomes conhecidos dos games com Bolsonaro ocorreu principalmente em 2018. Gaules declarou apoio ao então candidato e atuou como cabo eleitoral. Em 2019, Gabriel Toledo, o FalleN, conversou por telefone com Bolsonaro sobre impostos para o setor.
A relação perdeu força durante a pandemia, em razão da forma como Bolsonaro lidou com a Covid. Entre apoiadores de Lula, o apoio público foi mais cauteloso. Em 2022, Casimiro Miguel afirmou que votaria no petista, mas que não faria o “L” durante a campanha. Alanzoka também declarou apoio com ressalvas, enquanto Cellbit fez um gesto discreto com a letra durante uma transmissão ao vivo. O gesto provocou, anos depois, a reação de Nikolas Ferreira (PL-MG).
Para Thiago Falcão, professor da Universidade Federal da Paraíba, a identidade gamer já está consolidada e, por isso, é esperado que a esquerda tente se aproximar do setor. Ele avalia, porém, que essa ocupação ocorre de forma inadequada por falta de ligação com a cultura gamer.
Kim Kataguiri (Missão-SP), autor do projeto que resultou no Marco Legal dos Games, também prevê pouco efeito para a iniciativa da esquerda. O deputado tem mais de 4.300 horas registradas em “Dota 2”. Segundo ele, a comunidade rejeita parlamentares que não demonstram conexão real com os jogos.
Propostas e candidatos
A participação da esquerda em políticas públicas para games não começou agora. Em 2004, o Ministério da Cultura de Gilberto Gil lançou o edital JogosBR, considerado um marco para a indústria.
Neste ano, Márcio Filho, do PC do B, tenta uma cadeira no Legislativo fluminense. Ex-presidente da Associação de Criadores de Jogos do Estado do Rio de Janeiro, ele ajudou a formular o projeto de Jandira Feghali e o Marco Legal dos Games.
Paulo Teixeira (PT-SP), que tenta a reeleição para a Câmara, publicou uma conversa com Rodrigo Terra, presidente da Abragames, e Gustavo Steinberg, CEO da Gamescom Latam. O tema foi o potencial do Brasil na economia criativa.
Entre os presidenciáveis, Flávio Bolsonaro (PL) e Renan Santos (Missão) não mencionam games em seus programas oficiais. Ronaldo Caiado (PSD) inclui o setor em propostas de economia do esporte, inovação e eventos, além de prever uma política industrial para audiovisual e jogos. Augusto Cury (Avante) cita o videogame como fator negativo para o aprendizado.
Lula incluiu games em seu plano de governo e associou sua gestão à aprovação do Marco Legal dos Games. Em 2022, sua campanha lançou a cartilha “Lula Play”, com 32 páginas de propostas para o setor e um jogo no qual o candidato aparecia como um personagem inspirado em Mario.
Érika Caramello, cofundadora da Rede Progressista de Games, participou de uma reunião no Instituto Lula para apresentar informações sobre o universo gamer. Segundo ela, o documento entregue à campanha foi publicado sem alterações como plano de governo.
Disputa antes das eleições
O governo Lula 3 também enfrentou críticas de setores gamers. Em 2023, Ana Moser, então ministra do Esporte, afirmou que esporte eletrônico não é esporte. Depois, Lula declarou que os games não tratariam de amor ou educação e ensinariam crianças a matar.
Mais recentemente, a ANPD determinou que o Discord suspendesse as transmissões ao vivo na plataforma. A decisão ocorreu após a morte de uma jovem de 13 anos que teria sido induzida por adolescentes à automutilação e ao suicídio em cenas exibidas no serviço.
Janja defendeu uma atuação do Judiciário para retirar a plataforma do ar. Para Thiago Falcão, o episódio pode ter reduzido a disposição de marqueteiros para associar candidatos ao universo gamer neste momento.



