Dezenas de famílias acampadas no norte de Mato Grosso aguardam a retirada de fazendeiros de uma área pública de 2.000 hectares, destinada à criação do Projeto de Desenvolvimento Sustentável Novo Mundo. O prazo estabelecido pela Justiça Federal termina em 24 de outubro, um dia antes do segundo turno das eleições de 2026.
O acampamento União Recanto Cinco Estrelas existe há nove anos, enquanto o projeto do assentamento tem 24 anos. As famílias apoiam a candidatura de Lula (PT) e afirmam temer que uma derrota do candidato inviabilize a implantação do assentamento. O segundo turno está marcado para 25 de outubro, com Lula e Flávio Bolsonaro (PL), filho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), apontados pelas pesquisas como os concorrentes mais prováveis.
A área fica do outro lado da rodovia MT-322, próxima à Fazenda Cinco Estrelas. A propriedade tem 4.354 hectares, e a Justiça Federal decidiu, em primeira e segunda instâncias, que o domínio é da União. Os fazendeiros da família Rodrigues da Cunha devem desocupar o local. Ainda cabe recurso.
Disputa judicial e atuação policial
A família obteve prazo de 180 dias para deixar a área, conforme decisão de 24 de abril. Posteriormente, a Justiça determinou que a contagem fosse feita em dias corridos. Pela conta dos acampados, o prazo acaba em 24 de outubro; considerando a contagem exata, os 180 dias terminam em 21 de outubro. O juízo de origem ainda pode prorrogar o período.
Em nota, o Incra afirmou que não se trata de desapropriação, mas de um imóvel público cujo domínio da União foi reconhecido pela Justiça. O órgão disse que há medidas judiciais para a desocupação e para sua entrada na posse, permitindo a implantação do assentamento e o ingresso das famílias beneficiárias.
Em 2024, acampados ocuparam parte dos 2.000 hectares diante do impasse sobre a retirada dos fazendeiros. Segundo as famílias, a patrulha rural da Polícia Militar de Mato Grosso foi acionada e houve prisões sem mandado judicial. Um padre, uma defensora pública e uma agente da Comissão Pastoral da Terra também foram detidos. Os acampados afirmam que permaneceram presos por uma semana.
O governo de Mato Grosso declarou que a PM recebeu uma denúncia de invasão ilegal e aplicou as diretrizes do Programa Tolerância Zero às Invasões de Terra. A corporação informou ter prendido 13 envolvidos e apreendido espingarda, facas, facões e armas artesanais, além de um bastão de beisebol com pregos. Segundo o governo estadual, a polícia atua para garantir a segurança de assentados e proprietários rurais.
As famílias relatam que homens armados, chamados por elas de “guachebas”, vigiam a área. Lideranças do acampamento e do assentamento próximo também dizem receber ameaças de agressão e de morte, que teriam aumentado com a aproximação da eleição.
Condições no acampamento
Enquanto aguardam a decisão sobre a terra, os moradores vivem sem energia elétrica, água encanada ou poços, à margem de uma estrada vicinal e de uma rodovia. As casas alagam com frequência. Parte da área destinada ao assentamento foi arrendada para o plantio de soja, e um garimpo se instalou em outra área prevista no projeto.
Edna Lima, 49, afirma que a pulverização das plantações vizinhas leva agrotóxicos até o acampamento. “A soja está em volta da represa onde a gente pega água. Quando pulveriza, tem uma brisa de veneno aqui”, disse.
Maria Lúcia Vaz, 56, uma das acampadas mais antigas, espera entrar na Fazenda Cinco Estrelas antes do segundo turno. Ela relata que, durante a retirada de 2024, os moradores não puderam recolher seus pertences e que houve incêndio no local.



