SÃO PAULO — O senador Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência, passou a combinar ataques individuais aos ministros Alexandre de Moraes e Flávio Dino com a defesa da preservação do Supremo Tribunal Federal (STF). A mudança ocorre a poucas semanas do primeiro turno, quando busca ampliar o apoio entre eleitores independentes.
A estratégia, porém, mantém contradições. Flávio e seus aliados classificam como “farsa” e “perseguição” o julgamento que condenou Jair Bolsonaro pela tentativa de golpe em 2022. A decisão foi tomada pela Primeira Turma do Supremo, e não apenas por Moraes e Dino. Mesmo assim, Flávio promete anular a condenação por meio de um indulto.
No comício de 7 de Setembro, na avenida Paulista, o senador disse ser necessário “proteger o STF do Alexandre de Moraes” e afirmou que uma “laranja podre” não poderia contaminar toda a Corte. Em 2 de setembro, defendeu uma “defesa intransigente do Supremo Tribunal Federal”, mas vinculou a recuperação da credibilidade da instituição à saída de Moraes.
Críticas a ministros e propostas para a Corte
Moraes passou a ser alvo central dos bolsonaristas após a divulgação de conversas suspeitas com Daniel Vorcaro, ex-banqueiro do Master. O episódio foi usado para questionar decisões relacionadas ao inquérito sobre a tentativa de golpe.
Dino é criticado por ter derrubado uma decisão de André Mendonça que afastava o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e por ter deflagrado uma operação sobre possível desvio de recursos parlamentares para entidades ligadas a Karina Gama, produtora do filme “Dark Horse”, sobre a vida de Bolsonaro. A produção também recebeu recursos de Vorcaro a pedido de Flávio.
O senador é investigado no inquérito do Supremo que apura possível lavagem de dinheiro e corrupção no financiamento do filme. Ele nega irregularidades e define o caso como um negócio privado.
No plano de governo, Flávio afirma que pretende devolver ao Supremo o papel de Corte Constitucional e restabelecer o equilíbrio entre os Poderes. Entre as propostas estão permitir que parlamentares sejam julgados por instâncias inferiores e limitar decisões monocráticas do tribunal.
Apesar do discurso atual, há pouco mais de um mês o senador defendia o impeachment de Moraes, Dino e Cristiano Zanin. Em julho de 2023, também pediu o impeachment de Luís Roberto Barroso, depois de o ministro afirmar que o país havia derrotado o bolsonarismo.
Vagas no Supremo e apoio no Senado
Flávio tem destacado que poderá fazer quatro indicações ao STF caso seja eleito. Além da vaga deixada por Luís Roberto Barroso, que se aposentou no ano passado, Luiz Fux, Cármen Lúcia e Gilmar Mendes devem deixar a Corte nos próximos quatro anos por aposentadoria compulsória.
Com quatro nomeações, seis ministros teriam chegado ao Supremo por indicação da família Bolsonaro, formando a maioria entre os 11 integrantes. André Mendonça e Kassio Nunes Marques foram escolhidos por Jair Bolsonaro.
Mendonça também se tornou símbolo da mobilização bolsonarista depois de revelar as mensagens entre Moraes e Vorcaro. Evangélico, ele publicou um vídeo de agradecimento pelas orações dos apoiadores e recebeu elogios de Michelle Bolsonaro, que o chamou de “escolhido” e “ungido do Senhor”. Na avenida Paulista, na segunda-feira (7), apareceu em um boneco inflável gigante. Camisetas com a frase “Força, Mendonça” foram produzidas a mando do prefeito Ricardo Nunes.
Para Fábio de Sá e Silva, professor de estudos brasileiros na Universidade de Oklahoma (EUA) e pesquisador de Justiça e democracia, as revelações sobre Moraes podem atrair eleitores não bolsonaristas incomodados com as informações divulgadas. Ele avalia, contudo, que o histórico do grupo não permite concluir que exista compromisso com a proteção institucional do Supremo.
Sá e Silva cita a hostilidade de Jair Bolsonaro e de seus apoiadores contra o Congresso e o STF durante a pandemia da Covid-19. Em 2018, Eduardo Bolsonaro afirmou que bastariam “um soldado e um cabo” para fechar a Corte.
O PL também busca eleger uma bancada numerosa no Senado, com capacidade para pautar o impeachment de ministros. Para o professor, as críticas a Moraes podem trazer ganhos eleitorais imediatos; uma eventual disputa com o Supremo ficaria para depois, caso o grupo conquiste o governo e uma maioria alinhada no Senado.
Flávio afirma que, se eleito, Bolsonaro, hoje em prisão domiciliar, entregará a faixa presidencial a ele. O ex-presidente foi condenado em setembro de 2025 a 27 anos de prisão pela tentativa de golpe. O placar foi de 4 votos a 1, com divergência de Luiz Fux; também votaram pela condenação Moraes, Dino, Cármen Lúcia e Cristiano Zanin.



