Episódios de intolerância contra símbolos católicos e religiões de matriz africana e afro-brasileira se multiplicam no Brasil. Entre eles estão o caso de um pastor que chutou Nossa Senhora Aparecida e a declaração de outro que chamou a imagem de “Satanás fantasiado de azul”. O fenômeno não se resume a um conflito entre católicos e evangélicos: envolve grupos fundamentalistas que transformam diferenças religiosas em antagonismo e usam a fé como instrumento de poder.
A devoção a Aparecida surgiu no século 18. Pio 11 a proclamou Padroeira do Brasil em 1930. Em 1980, uma lei sancionada por João Figueiredo estabeleceu 12 de outubro como feriado nacional. O reconhecimento oficial acompanhou uma tradição popular já existente.
Esse contexto ajuda a dimensionar a declaração de Flávio Bolsonaro de que, se eleito, decretará que “o Brasil é do Senhor Jesus Cristo”. A Presidência deve governar pessoas de todas as crenças e também aquelas que não têm religião. O Estado laico impede que uma fé seja imposta às demais.
Fé, poder e fabricação de inimigos
A Teologia do Domínio interpreta a ocupação das instituições como parte de uma disputa religiosa. Algumas correntes se aproximam, nesse terreno, da extrema direita, da qual o bolsonarismo é uma expressão relevante no Brasil. Isso não significa tratar todos os conservadores ou eleitores de direita como parte do mesmo fenômeno.
Também não basta explicar os excessos pela polarização, como se houvesse equivalência entre práticas, responsabilidades e consequências. A intolerância pode ganhar outra dimensão quando é organizada como instrumento político. No Brasil, a contestação da eleição de 2022, os acampamentos que pediam intervenção militar e o 8 de Janeiro fizeram parte desse ambiente.
Uma bomba foi colocada em um caminhão-tanque com 63 mil litros de querosene de aviação perto do aeroporto de Brasília. Em 2024, Francisco Wanderley Luiz lançou um explosivo contra o STF e morreu ao detonar outro. Durante a pandemia, um apoiador de Bolsonaro derrubou, em Copacabana, cruzes que homenageavam vítimas da Covid-19. Um pai que havia perdido o filho voltou a fincá-las.
Desigualdade, exploração e insegurança podem alimentar ressentimentos, mas não definem sozinhas contra quem eles serão dirigidos. Em uma sociedade marcada pela escravidão, pelo racismo e por hierarquias de classe, a política pode fabricar inimigos e canalizar a hostilidade contra pobres, negros e minorias vulnerabilizadas. Redes sociais e algoritmos ampliam a exploração de medos e preconceitos.
Mentiras, contradições e recuos não podem ser tratados como método legítimo de quem pretende ocupar a Presidência. Acusações contra adversários devem ser apuradas, mas não substituem a resposta à questão original. O escrutínio precisa valer para todos, sem presumir que frequência, gravidade e finalidade sejam iguais.
A imagem de Aparecida
As expressões “Deus, Pátria, Família e Liberdade” também não podem servir para legitimar intolerância. Deus não autoriza a perseguição religiosa; pátria não combina com uma enorme bandeira dos Estados Unidos erguida no 7 de Setembro; família não corresponde a um único modelo; e liberdade não pode existir apenas para quem pensa, crê, ama ou vive de uma determinada maneira.
A democracia depende das urnas e do respeito ao Estado Democrático de Direito, mas também de soberania, inclusão e direitos. O debate envolve os fundamentos da convivência: de um lado, autoritarismo, exclusão e intolerância convertidos em método político; de outro, uma sociedade pacífica, inclusiva, criativa e produtiva.
No centro dessa fúria está Nossa Senhora Aparecida, uma mulher pobre, preta e popular. Encontrada por pescadores em 1717, sua pequena imagem atravessou três séculos e diferentes regimes antes de se tornar Padroeira do Brasil.
Defender Aparecida, os terreiros e o direito de cada pessoa acreditar — ou não — é defender uma sociedade na qual ninguém imponha sua fé nem seja transformado em inimigo por sua origem, cor, condição social, religião ou modo de vida. Quando se decide quem pode pertencer plenamente e quem deve se submeter, não são apenas imagens que ficam ameaçadas. A própria democracia entra em risco.




