Flávio Bolsonaro, candidato à Presidência pelo PL, e Michelle Bolsonaro, candidata ao Senado, mantêm proximidade com a Comunidade das Nações, igreja fundada pelo bispo JB Carvalho. Jair Bolsonaro também participou de atividades da instituição, que tem sede em Brasília. O religioso apoiou o ex-presidente na eleição de 2022 e escreveu que Nossa Senhora Aparecida não deveria ser reconhecida como padroeira do Brasil.
Carvalho é teólogo, escritor, conferencista e bispo. A página oficial da igreja informa que a instituição possui mais de 50 unidades no Brasil, nos Estados Unidos e em Portugal. O bispo também preside a Editora Chara, a Faculdade das Nações, a Academia das Nações e o Instituto Filhos do Brasil. A mesma biografia registra 32 anos de ministério e 23 livros publicados.
Relação com a família Bolsonaro
Flávio e a mulher, Fernanda Bolsonaro, foram batizados na Comunidade das Nações em janeiro de 2024. Ao publicar uma foto da cerimônia, o senador descreveu o episódio como “mais uma guinada pro lado certo na vida”. Em dezembro do ano passado, dois dias depois de anunciar sua pré-candidatura à Presidência, ele escolheu a igreja para sua primeira aparição pública após o anúncio.
Em 25 de novembro de 2025, três dias depois da prisão de Jair Bolsonaro, Flávio visitou o pai na Superintendência da Polícia Federal, em Brasília. Ele levava o livro Metanoia — A Chave Está em Sua Mente, de JB Carvalho. A obra trata de mudança de mentalidade a partir de uma perspectiva cristã, mas o material disponível sobre o livro não menciona Nossa Senhora Aparecida nem discute especificamente imagens católicas.
A crítica à devoção a Maria está em outro livro, A Bomba: A verdade pode ser explosiva, publicado em 2001. No capítulo “A Rainha dos Céus no Brasil”, Carvalho relaciona a devoção católica a Maria ao culto à chamada “Rainha dos Céus”, condenado em passagens do Antigo Testamento. Ele escreveu que “Deus odeia o culto à Rainha dos Céus”, questionou a legalidade do feriado de 12 de outubro e defendeu a retirada do título de padroeira nacional de Nossa Senhora Aparecida. Também pediu mobilização de cristãos e parlamentares em torno da proposta.
A Igreja Católica diferencia a veneração a Maria da adoração, reservada exclusivamente a Deus.
Michelle frequenta a Comunidade das Nações e é próxima de Dirce Carvalho, mulher do bispo. Durante a campanha de 2022, participou de eventos da instituição e foi ungida por JB Carvalho. Na noite da derrota de Bolsonaro para Lula, o bispo pregou para os fiéis e afirmou que “nada está perdido”.
Em julho de 2022, Jair e Michelle Bolsonaro participaram da Conferência Hombridade, a Jornada da Masculinidade, organizada pela igreja. Michelle também levou livros de Carvalho ao marido durante visitas à Polícia Federal. Em 9 de dezembro de 2025, entregou A Batalha de Todas as Gerações — Um Chamado à Reconciliação. Em 6 de janeiro de 2026, chegou ao local com A Jornada — De Meninos a Homens, obra que aborda a formação masculina e critica a chamada desconstrução da masculinidade e a “agenda progressista”.
Debate sobre o título de padroeira
Flávio negou que pretenda retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil. Não há evidência de que ele tenha defendido a proposta escrita por Carvalho em 2001. A afirmação de que o candidato adotaria essa medida circulou na reta final da eleição e foi contestada por ele na Justiça Eleitoral.
A controvérsia também envolveu o pastor da Assembleia de Deus Victório Galli, candidato a deputado federal pelo PP de Mato Grosso. Em 2007, cerca de dois meses após assumir como suplente de deputado, Galli apresentou à Câmara o PL 2.623/2007. O projeto propunha trocar a designação de Nossa Senhora Aparecida como “Padroeira do Brasil” por “Padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos”.
Galli sustentava que a posição da santa entraria em conflito com o caráter laico do Estado. A proposta foi arquivada em 2008. Depois de não conseguir a reeleição em 2018, ele se tornou assessor especial da Presidência durante o governo Jair Bolsonaro.
Galli afirmou na sexta (25) que não pretendia ofender católicos nem acabar com o feriado de 12 de outubro ou com o título de Padroeira do Brasil. Segundo ele, o objetivo era “desobrigar o culto às imagens”, porque o Estado é laico e evangélicos não cultuam santos. Ele disse que Flávio Bolsonaro não tinha relação com a proposta e atribuiu a retomada da discussão à esquerda.
Outro ponto da controvérsia foi uma declaração de Flávio. Em vídeo publicado em 23 de agosto para justificar sua ausência em um debate presidencial, ele disse que, se eleito, um de seus primeiros atos seria decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo.
A campanha afirmou nesta terça-feira (29) que o candidato se referia a uma oração antes da leitura do termo de posse, caso fosse eleito, em um gesto simbólico de entrega do Brasil a Jesus Cristo. A equipe declarou ainda que ele defende o respeito a todas as religiões e formas de expressão da fé.
As assessorias de Flávio e Michelle não responderam aos pedidos de manifestação até a publicação. JB Carvalho também foi procurado para comentar suas posições sobre o culto católico a imagens, mas não respondeu.



