As investigações sobre o financiamento de Dark Horse, filme produzido para contar a trajetória de Jair Bolsonaro, ainda não determinaram quanto dinheiro foi efetivamente arrecadado, qual foi sua origem nem qual foi o destino final dos recursos.
A Go Up Entertainment afirma, com base em uma perícia privada contratada por sua defesa, que a produção custou US$ 13,4 milhões, aproximadamente R$ 75 milhões. O documento diz que os custos foram bancados pelo fundo norte-americano Havengate, mas não identifica nominalmente todos os financiadores.
Repasses ligados ao Banco Master
Uma nova frente foi aberta nesta quinta-feira (24), com a terceira fase da Operação Carbono Oculto, chamada Crédito Oculto. A Polícia Federal apontou a Entre Investimentos como intermediária de recursos enviados por Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, ao Havengate Development Fund.
O ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou que a Entre recebia recursos do Banco Master e de grupos ligados ao crime organizado. Questionado sobre uma possível relação entre essa estrutura e o dinheiro usado nas operações ligadas ao filme, disse que “tudo indica que sim”, mas ressaltou que a investigação precisa rastrear a origem de cada recurso.
Flávio Bolsonaro já declarou que procurou Vorcaro para buscar patrocínio privado para o projeto. As investigações indicam que o valor inicialmente tratado chegou a US$$ 24 milhões, cerca de $$ 134 milhões na época. Vorcaro teria destinado US$$ 12,33 milhões ao projeto, aproximadamente $$ 63 milhões atualmente, por meio da Entre e do fundo sediado nos Estados Unidos.
Flávio confirmou que o investimento relacionado ao ex-controlador do Banco Master ficou em “12 milhões e alguma coisa de dólares”. Esse montante se aproxima do custo total declarado pela produtora.
Valores recebidos diretamente pela produtora
Documentos analisados pela Polícia Federal e pelo Coaf mostram que a Go Up recebeu aproximadamente R$ 8,95 milhões entre 10 de novembro e 30 de dezembro de 2025. Os principais créditos identificados foram:
- R$ 3,92 milhões da Moneycorp Banco de Câmbio;
- R$ 2,61 milhões da GO7 Assessoria, Produção e Marketing Cultural;
- R$ 1 milhão de Marcello de Oliveira Lopes;
- R$ 750 mil da NTT Brasil;
- R$ 645,4 mil de Mário Frias.
A Moneycorp atua no mercado de câmbio, e parte do valor pode corresponder à conversão de recursos enviados do exterior. A GO7 pertence a Karina Gama, que também controla a Go Up. Já Lopes, ex-marqueteiro de Flávio Bolsonaro, afirmou que o R$ 1 milhão foi um investimento privado feito com recursos próprios. A Polícia Federal não atribuiu irregularidade específica ao pagamento.
Emendas parlamentares sob apuração
A Polícia Federal investiga R$ 2 milhões em emendas destinadas por Mário Frias a entidades comandadas por Karina Gama. Frias é produtor-executivo e um dos roteiristas de Dark Horse.
Relatórios da Controladoria-Geral da União apontaram irregularidades na execução dos projetos. Em uma das linhas investigadas, R$$ 700 mil recebidos pelo Instituto Conhecer Brasil foram repassados à Dinâmica Editora e ao Instituto Super Poder Educacional. Depois, a NTT Brasil transferiu $$ 750 mil à Go Up.
A investigação apura se recursos públicos circularam entre empresas até chegar à produção. Não foi concluído, porém, que os mesmos R$$ 700 mil das emendas correspondam aos $$ 750 mil depositados na conta da produtora.
Flávio Dino afirmou haver indícios, ainda no “terreno hipotético da investigação”, de que Frias teria papel de liderança na suposta arquitetura de desvio de emendas. O deputado nega irregularidades e diz que os recursos foram destinados a projetos sociais. A Polícia Federal também questionou a compatibilidade dos R$ 645,4 mil transferidos por Frias à produtora com os rendimentos declarados por ele.
Participação de Eduardo Bolsonaro
Relatório da Polícia Federal registra que Eduardo Bolsonaro apresentou orientações sobre a administração, nos Estados Unidos, dos recursos destinados ao filme. Segundo mensagens atribuídas a ele, deveria ser enviada ao país a maior quantidade possível de dinheiro pelo modelo de remessas utilizado.
O Havengate foi criado por Paulo Calixto e Altieris Santana. Calixto é advogado ligado a Eduardo Bolsonaro. O fundo, originalmente voltado a operações imobiliárias e praticamente inativo, passou a receber recursos em fevereiro de 2025.
As informações públicas disponíveis não permitem afirmar que valores destinados formalmente ao filme tenham sido usados em despesas pessoais de Eduardo Bolsonaro ou de sua família.
Somar todos os repasses identificados seria incorreto, porque algumas operações podem representar etapas diferentes de circulação do mesmo dinheiro. As investigações ainda buscam esclarecer quem financiou o projeto, quanto foi arrecadado, por quais estruturas os recursos passaram e onde terminaram. Também não há respostas conclusivas sobre eventual uso de recursos captados para atividades políticas ou despesas que deveriam ser declaradas como eleitorais.




