A Polícia Federal aponta que emendas do deputado federal Mario Frias (PL-SP) podem ter sido usadas em um esquema com suspeitas de peculato, fraude e lavagem de dinheiro. O documento da corporação cita possíveis desvios de R$ 2 milhões destinados aos projetos “Lutando pela Vida” e “Jovem Empreendedor”.
Os recursos foram recebidos pelo Instituto Conhecer Brasil (ICB) e, conforme a investigação, repassados a empresas ligadas a ex-secretários parlamentares, advogados e pessoas próximas ao deputado. A apuração também menciona gastos de cota parlamentar, doações eleitorais e transferências para a produtora Go Up, responsável pelo filme “Dark Horse”, sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
Karina Gama, empresária investigada, é ligada ao ICB e à Go Up. Empresas relacionadas a ela também receberam verbas de parlamentares e de órgãos públicos, incluindo a Prefeitura de São Paulo. Karina nega irregularidades e afirma que “investigação não é acusação, muito menos condenação”. Frias, que tenta a reeleição, nega irregularidades e classificou a busca e apreensão realizada em 10 de setembro como “cortina de fumaça” em meio às eleições de 2026.
Advogados e ex-secretários
A LF&P Consulting, empresa de Fábio Lago Meirelles, advogado de Frias, recebeu R$ 80 mil do ICB no projeto “Jovem Empreendedor”, por serviços contábeis e jurídicos. Meirelles também recebeu R$ 69 mil da Complexsys entre outubro de 2024 e abril de 2026. O advogado assinou o estatuto social do ICB, que tinha endereço no mesmo edifício da empresa.
A banca de Diego Aguilera Martinez recebeu R$ 151.427,13 do instituto. Ele afirma que os serviços foram prestados e eram lícitos.
Raphael Augusto Azevedo, ex-secretário parlamentar, foi alvo de busca e apreensão. Kayo Henrique Azevedo, irmão dele, aparece como responsável técnico do “Jovem Empreendedor”. Gardenia Morais, ex-companheira de Kayo e ex-secretária de Frias, confirmou repasse de parte do salário a Raphael Azevedo. Paula de Oliveira Lima, que trabalhou no gabinete de fevereiro a abril de 2024, abriu a Agência Loop dois dias depois de deixar o cargo. A empresa apresentou proposta de R$ 311 mil ao ICB.
Doações e contratos
Frias recebeu R$ 70 mil de Luiza Tessari Rocha Dias em 2022. Rudyge Boldrini doou R$ 4 mil e recebeu R$ 7.500 por serviços prestados à campanha entre agosto e outubro de 2022. Ele foi eleito conselheiro fiscal do ICB para mandato de janeiro de 2024 a janeiro de 2032, mas deixou a função em novembro de 2024. Depois, foi contratado para atuar no “Lutando pela Vida”, cuja execução não foi integralmente comprovada pela Controladoria-Geral da União.
Segundo as autoridades, Boldrini abriu um MEI poucos dias antes da contratação, com possível assinatura retroativa do contrato. O acordo previa serviços de coordenação técnica e organizacional de atividades de jiu-jitsu, no valor de R$ 105 mil.
A GTrend, cujo sócio-administrador era Wemerson Marinho, ex-marido de Karina Gama, recebeu R$ 115,6 mil do gabinete de Frias entre abril de 2023 e agosto de 2024. A Complexsys, de Andre Feldman, recebeu ao menos R$ 154 mil de recursos de cota parlamentar entre setembro de 2024 e abril de 2026.
Entre outubro de 2024 e outubro de 2025, a Complexsys movimentou mais de R$ 18 milhões. No período, recebeu R$ 5 milhões do ICB e R$ 92.400,00 de Frias. Também enviou valores à ANC, a Feldman, a Meirelles, ao ICB e a Karina. A empresa refuta as imputações e afirma que o contrato com o gabinete atende às exigências legais.
Transferências para a Go Up
Frias transferiu R$ 645 mil à Go Up. A PF considera o valor incompatível com o salário do deputado, de R$ 44 mil. A produtora também recebeu R$ 750 mil da NTT, cujo sócio-administrador é Heric Dias.
Empresas ligadas a Dias receberam R$ 700 mil em emendas parlamentares destinadas ao ICB para o “Jovem Empreendedor”. A Go Up recebeu ainda R$ 2.614.000 da Conhecer Brasil Assessoria Produção e MKT Cultural, a GO 7, entre 10 de novembro de 2025 e 30 de dezembro de 2025.
A GO 7 recebeu R$ 1 milhão do ICB entre dezembro de 2025 e fevereiro de 2026 e R$ 54 mil em gastos de campanha de Frias em 2022. A investigação ainda cita Pamella Cristiane Dias, irmã de Heric, como sócia do Instituto Super Poder Educacional e autora de livros fornecidos ao projeto.



