SÃO PAULO — A Polícia Civil de São Paulo chegou ao início de setembro sem obter do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) os dados financeiros pedidos durante a investigação sobre possível uso de recursos públicos na produção de “Dark Horse”. O requerimento apresentado à Justiça não incluiu as contas da Go Up Entertainment, empresa responsável pelo filme.
O Ministério Público de São Paulo pediu a abertura do caso em 12 de março. A solicitação chegou à Polícia Civil em 27 de março, e o inquérito foi instaurado em 31 de março. Em 22 de maio, a corporação requereu autorização para acessar relatórios de inteligência financeira do Instituto Conhecer Brasil (ICB) e de Karina Ferreira da Gama, mas deixou a produtora fora do pedido.
A Justiça autorizou, em 26 de maio, buscas em oito endereços. As diligências ocorreram em 1º de junho, com apreensão de celulares, computadores, documentos e outras mídias. A extração dos dados começou em julho, mas não havia sido concluída quando o caso passou à esfera federal.
Relação entre o instituto e o filme
Karina é produtora executiva de “Dark Horse” e preside o ICB, organização que recebeu R$ 69 milhões da Prefeitura de São Paulo, durante a gestão de Ricardo Nunes (MDB), para instalar e manter pontos gratuitos de internet em comunidades de baixa renda.
A Polícia Civil identificou que o instituto e a Go Up têm Karina no comando e funcionam no mesmo endereço. Também apontou que os pagamentos municipais ao ICB ocorreram no mesmo período em que a produtora buscava recursos públicos para realizar o filme. A corporação avaliou haver uma aparente falta de separação estrutural e operacional entre as duas entidades.
A suspeita era de que valores destinados ao programa Wi-Fi Livre SP pudessem ter sido desviados para a produção cinematográfica. O inquérito, porém, não apresentou conclusão comprovando essa transferência. As filmagens foram realizadas no Brasil entre outubro e dezembro de 2025.
Ao abrir a investigação, a Polícia Civil decidiu concentrar o trabalho no contrato de Wi-Fi firmado com o ICB. A origem do dinheiro usado no filme ficou fora do objeto formal do inquérito. Em agosto, a corporação reiterou que queria relatórios do Coaf apenas sobre Karina e o instituto, embora tivesse mencionado a possibilidade de repasses para a Go Up.
Decisões judiciais e mudança de competência
O pedido para acessar os dados financeiros foi analisado pela Justiça em 28 de agosto, mais de três meses depois de apresentado. O juiz Nelson Augusto Bernardes de Souza entendeu que a polícia ainda não havia indicado quais documentos independentes sustentavam as suspeitas financeiras e pediu esclarecimentos sobre a ligação entre os recursos do ICB e a produtora.
Até o fim de agosto, a Polícia Civil não havia demonstrado documentalmente o vínculo entre o dinheiro do programa de internet e a Go Up. O pedido também mencionava notas fiscais sequenciais sem documentação que comprovasse a prestação dos serviços e documentos cancelados no mesmo dia da emissão.
Em 21 de agosto, o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), autorizou o compartilhamento das provas reunidas pela Polícia Civil com a Polícia Federal. A PF pretendia comparar esse material com a própria investigação sobre o financiamento de “Dark Horse”, filme sobre a biografia do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Em 10 de setembro, Dino avocou o inquérito e a medida de busca, transferindo ao STF a supervisão integral do caso. A condução da investigação passou à Polícia Federal.
A Secretaria da Segurança Pública de São Paulo afirmou que a Polícia Civil atuou de forma contínua, instaurou o inquérito em 31 de março, pediu acesso aos relatórios do Coaf em maio e cumpriu as buscas em 1º de junho. Também informou que a Go Up não era alvo inicial e passou a ser investigada após a identificação de vínculo cadastral com o ICB.
A Prefeitura de São Paulo declarou, em junho, que a contratação do instituto observou os princípios da legalidade, transparência e economicidade. A Secretaria da Segurança Pública informou que a Polícia Civil cumprirá as determinações do STF e não pode comentar diligências posteriores nem antecipar conclusões.



