RIO DE JANEIRO — Policiais que participaram da operação Contenção, realizada no Rio de Janeiro em outubro do ano passado, lançaram candidaturas ao Legislativo para as eleições de 2026. A ação terminou com 122 mortos e é considerada a operação policial mais letal da história do Brasil. Os candidatos têm apoio do senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
A estratégia retoma o caminho de policiais que ganharam projeção após o massacre do Carandiru, em 1992. A ação deixou 111 mortos e era, até a operação Contenção, a incursão policial mais letal do país.
O número 122 nas urnas
O ex-secretário de Polícia Civil Felipe Curi (PP) concorre a deputado federal, enquanto o Delegado Bernardo Leal (PP) disputa uma vaga de deputado estadual. Os dois adotaram 122 como número de urna, em referência às mortes da operação.
Leal foi baleado por traficantes do Comando Vermelho durante a ação no complexo da Penha. Ele ficou 45 dias internado e teve uma das pernas amputadas. A operação completa um ano em 28 de outubro.
Curi comandou a Polícia Civil durante a operação e afirma, em sua propaganda eleitoral, que liderou uma ação responsável por “neutralizar 117 ‘narcoterroristas’”. Além dos 117 mortos entre os traficantes, cinco policiais morreram.
O ex-secretário havia negado publicamente, por meses, a intenção de disputar uma eleição. Enquanto participava de podcasts sobre os bastidores da operação, porém, seu nome foi testado em pesquisas para o Senado e chegou a ser considerado para a eleição a governador. O PL escolheu Douglas Ruas para a disputa.
A operação foi apoiada por 57% dos moradores da região metropolitana, conforme pesquisa Datafolha realizada nos dias seguintes. O então governador Cláudio Castro criticou o presidente Lula quando o número de mortos ainda era 20. Depois, classificou a ação como um sucesso. Lula chamou a operação de “matança” e “desastrosa”.
Munique Busson (PSDB), candidata a deputada federal, participou da operação como policial militar e passou a criticar, nas redes sociais, quem condenou a ação. Após uma conversa em Brasília com Michelle Bolsonaro, decidiu disputar a eleição. Ela usa um calibre de fuzil como número de legenda.
A associação entre operações policiais e campanhas eleitorais também ocorreu após o Carandiru. Em 1994, o coronel da reserva Ubiratan Guimarães tentou uma vaga na Assembleia Legislativa de São Paulo usando o número 111. Afanasio Jazadji e Conte Lopes foram reeleitos com o mesmo número e discursos favoráveis à ação.
Ubiratan negou que 111 fizesse referência às mortes, mas usou o episódio em panfletos. Ele só se elegeu em 2002, durante recurso de uma condenação por 105 das 111 mortes. Foi encontrado morto em seu apartamento em São Paulo em 2006, em circunstâncias não esclarecidas.




