A expansão das aspirações entre os segmentos populares transformou a relação dos brasileiros com o consumo, o trabalho e a política. A ampliação dos desejos abriu novas possibilidades de mobilidade, mas também aumentou frustrações diante do endividamento, da precarização e da ausência percebida do Estado.
A análise parte do conceito de classes aspiracionais: grupos que passaram a desejar outros futuros e a considerar que merecem mais. Esse processo foi impulsionado, no Brasil, pela expansão do crédito, pela inclusão pelo consumo, pela transferência de renda e pelas ações afirmativas associadas às políticas lulistas dos anos 2000. A teologia da prosperidade nas igrejas neopentecostais também ajudou a difundir a ideia de autonomia e ascensão individual.
Entre 2009 e 2014, pesquisas sobre o consumo das classes populares de Porto Alegre registraram a importância de bens como celulares, roupas e tênis. A compra podia representar mais que acesso a produtos: era uma forma de reivindicar respeito e visibilidade. Os rolezinhos de 2014 expressaram esse desejo de circular em shopping centers e consumir por meios formais.
A crise econômica e política iniciada em 2014 frustrou parte dessas expectativas. Um estudo sobre o período entre 2016 e 2018 identificou a adesão de alguns desses jovens e de seus pais ao bolsonarismo, em uma revolta dirigida ao partido associado à abertura daquela janela de consumo.
O empreendedorismo como promessa
Nos últimos cinco anos, as redes sociais ampliaram ainda mais o repertório de sonhos. Milhões de brasileiros passaram a tentar obter renda, empreender ou se tornar influenciadores. A promessa de trabalhar pela internet oferece autonomia, conforto e liberdade, mas convive com empregos mal remunerados, bicos e trabalhos plataformizados.
A exceção de poucos influenciadores bem-sucedidos é apresentada como regra. Nos últimos três anos, o acompanhamento diário de 700 influenciadores identificou um ecossistema baseado em mentorias, discursos de meritocracia e promessas de riqueza. Levantamentos mencionados na análise indicam que 90% desses influenciadores se alinham à extrema direita.
A maioria dos aspirantes não alcança prosperidade econômica. Ainda assim, muitos atribuem o fracasso ao próprio esforço ou ao chamado mindset, contraindo dívidas para comprar novas mentorias. Entre as pessoas acompanhadas estão mulheres negras, mães e trabalhadoras com dupla jornada, para quem a renda digital aparece como uma possibilidade de mudança.
A disputa política
A adesão à extrema direita não depende apenas de as aspirações terem sido realizadas ou frustradas. O fator central é a percepção sobre a presença do Estado e o peso atribuído ao esforço individual. Parte das pessoas que melhoraram de vida e reconhecem a atuação contínua do Estado tende a rejeitar a extrema direita e votar em Lula.
Outro grupo vê o Estado como ausente, ineficiente e corrupto, presente sobretudo para cobrar impostos. Esse universo é definido como autoritariado: parcelas das classes aspiracionais e pobres que aprenderam a se virar e passaram a valorizar o mérito individual, o conservadorismo e o autoritarismo.
A extrema direita explora o desejo de autonomia e o transforma em uma defesa da liberdade individual. O discurso também alimenta comparações entre quem trabalha e quem recebe políticas de transferência de renda, produzindo um senso de merecimento precário e o desprezo pelos mais pobres.
O desafio para Lula é conectar-se a trabalhadores que buscam autonomia e não se identificam com a luta coletiva ou com a presença estatal. A questão, portanto, não se limita à criação de novas narrativas: envolve desenhar políticas públicas que preservem o desejo de independência e conforto e ampliem a proteção do Estado às classes aspiracionais.



