Parte dos 23 brasileiros retidos em Madagascar desde agosto afirma não ter dinheiro para comprar as passagens de volta ao Brasil. O grupo diz ter escapado de uma rede de exploração relacionada a crimes cibernéticos. A Exodus Road Brazil acompanha os brasileiros e confirmou a falta de recursos.
Familiares de 11 integrantes fizeram declarações de hipossuficiência à Defensoria Pública da União (DPU) para tentar obter apoio do Itamaraty. O Ministério das Relações Exteriores, porém, afirma que essa comprovação é necessária, mas não basta para que o governo pague o retorno. A repatriação, segundo o órgão, é excepcional e não representa um direito automático.
Hipossuficiência é a condição de quem não tem dinheiro suficiente para arcar com custos judiciais ou contratar advogado sem comprometer o próprio sustento ou o da família.
Caso das moradoras de Uberaba
Duas mulheres de Uberaba estão entre os brasileiros. Elas viajaram acreditando que trabalhariam em um salão de beleza na Tailândia: uma recebeu proposta para atuar como cabeleireira e a outra, como recepcionista. A família afirma não ter condições de comprar as passagens, estimadas em aproximadamente R$ 5,5 mil até São Paulo, além do deslocamento posterior até Minas Gerais.
“Uma das minhas irmãs é cabeleireira e recebeu uma proposta para trabalhar em um salão de beleza na Tailândia”, relatou o irmão das duas mulheres. Segundo a Exodus Road Brazil, os familiares procuraram a DPU e comprovaram a hipossuficiência.
A ONG afirma haver indícios de tráfico internacional de pessoas e defende que o Estado brasileiro assegure proteção e condições para o retorno. A entidade também cita o Protocolo de Palermo, promulgado pelo Decreto nº 5.017/2004, que prevê assistência às vítimas e estabelece que o país de nacionalidade deve facilitar e aceitar o retorno, considerando a segurança delas.
Assistência consular
O Itamaraty informou que uma missão da Embaixada do Brasil em Maputo, em Moçambique, será enviada a Madagascar. A representação é responsável pelo atendimento consular relacionado ao país porque o Brasil não mantém uma embaixada residente em Antananarivo, capital malgaxe.
A embaixada foi informada sobre o caso em 21 de agosto e mantém contato com os brasileiros e com autoridades locais. O objetivo é verificar a situação pessoal e processual do grupo e acompanhar o respeito a direitos como o contraditório e a ampla defesa.
O ministério afirma que, além da declaração da DPU, avalia se o cidadão já foi repatriado antes. Também considera alternativas como ajuda de familiares, amigos, empregadores e redes de apoio, além de programas oficiais existentes no país onde o brasileiro está.
Relatos sobre a exploração
Após uma operação policial contra a rede, os brasileiros foram libertados, mas permaneceram sem os passaportes, segundo a Exodus Road Brazil. A organização orientou o grupo a não deixar o aeroporto por causa do risco de perseguição. Depois, uma entidade local acolheu os brasileiros em uma casa, onde eles continuam hospedados.
Missionários e outras organizações locais fornecem alimentação e itens básicos. Um familiar afirmou que os passaportes só seriam devolvidos após a compra das passagens para o Brasil.
A Exodus Road Brazil diz que os brasileiros foram submetidos a exploração para aplicar golpes virtuais, incluindo falsas abordagens em nome da Polícia Federal e o chamado golpe do amor. A organização ressalva que não é possível afirmar que todos os 23 sejam vítimas de tráfico, e que a situação de cada pessoa deve ser investigada pelas autoridades brasileiras.
Segundo a entidade, o grupo passou cerca de cinco meses em exploração antes de ser levado do Camboja para Madagascar. O Itamaraty afirma que alerta brasileiros desde 2022 sobre ofertas de trabalho no exterior sem procedência verificada. A versão mais recente do alerta, publicada em julho de 2026, trata dos riscos de tráfico de pessoas para o Sudeste Asiático.
“É uma vulnerabilidade e um sonho. Sonho de ter uma vida melhor, sonho de comprar uma casa, sonho de viajar, sonho de ter um bom salário”, afirmou Cintia Meirelles, representante da ONG.



