SÃO PAULO — A escolha do percurso da Linha 20-Rosa do Metrô opõe associações de bairro e a companhia responsável pelo projeto. O principal ponto de divergência é a passagem por Pinheiros e pelos Jardins, em vez de uma presença maior na avenida Brigadeiro Faria Lima, na zona oeste de São Paulo.
O Ministério Público instaurou nesta semana um procedimento preparatório de inquérito civil para apurar o projeto. A investigação está em fase inicial e corre sob sigilo. O Metrô afirmou ter enviado esclarecimentos, disse estar tranquilo e avaliou que o traçado preliminar é o de maior viabilidade.
Disputa pelo percurso
A proposta apresentada em 2023 prevê duas estações na avenida Faria Lima. Organizações lideradas pela Ame Jardins defendem a retomada de uma alternativa estudada anteriormente, com cinco estações na avenida. O argumento é que esse desenho atenderia um volume maior de passageiros.
A opção defendida pelas associações faria a linha seguir pela Faria Lima sem atravessar os Jardins. Já o traçado escolhido prevê estações também em Pinheiros e na Vila Madalena, o que leva a conexão entre esses pontos pela área dos Jardins. A estação Faria Lima, no largo da Batata, é apontada pelo grupo como o local que deveria receber a conexão com outras linhas, em vez da estação Fradique Coutinho.
A Ame Jardins contratou um estudo da consultoria de Sergio Avelleda, ex-presidente do Metrô, para contestar o material da companhia. Ele já havia produzido outro levantamento sobre o projeto cerca de dois anos antes.
Presidente da associação, Fred Affonso Ferreira afirma que a mobilização busca um “projeto de cidade”. Ele também diz que “o nosso foco é o metrô no lugar certo”, e não a discussão sobre desapropriações.
O percurso enfrenta ainda oposição de parte dos moradores de Pinheiros e da Vila Madalena, que apontam o potencial de aumento da verticalização no entorno. Uma carta pública contra uma estação na rua Girassol foi apresentada ao Conselho Participativo Municipal de Pinheiros no ano passado.
Áreas previstas para desapropriação
A expansão da estação Fradique Coutinho deverá resultar na desapropriação de cerca de 7,5 mil m² em área tombada do Jardim Paulistano. Há dois trechos previstos: o maior fica na expansão da estação, com acesso pela avenida Rebouças, e o outro corresponde a um poço VSE, de Ventilação e Saída de Emergência, na alameda Gabriel Monteiro da Silva.
O projeto previa inicialmente dois poços de ventilação na área tombada dos Jardins. Após um remanejamento em 2024, ficou um ponto, localizado em trecho comercial e fora do miolo do bairro. Órgãos de patrimônio indicaram que a ampliação da estação deverá considerar a ambiência e a paisagem dos Jardins.
Os imóveis nos trechos indicados são baixos, padrão relacionado às restrições do tombamento dos Jardins e à Lei de Zoneamento. Com a publicação da maioria das declarações de utilidade pública necessárias em 2025, proprietários de áreas que podem ser desapropriadas passaram a receber notificações desde o começo do ano.
A Ame Jardins afirma que sua mobilização não é uma resposta a esse processo.
Argumentos do Metrô
Luiz Antonio Cortez Ferreira, gerente de Planejamento do Metrô, diz que o grande volume de lançamentos imobiliários inviabilizou a criação de mais paradas na Faria Lima. Segundo ele, essa situação também levou à previsão de desapropriações no lado dos Jardins da Rebouças, onde havia empreendimento registrado no lado da avenida com permissão para prédios.
O gerente afirma que a demanda identificada está principalmente ligada à conexão com o corredor de ônibus da Rebouças e que o trecho escolhido está consolidado. Ele sustenta que a passagem da linha não terá impacto relevante dentro dos Jardins.
Cortez também diz que a operação ocorrerá a 40 metros de profundidade, praticamente dentro da rocha, e cita intervenções para evitar vibrações. O estudo de impacto ambiental de 2023, encomendado pelo Metrô, já previa desapropriações na Rebouças e na Sampaio Vidal. O documento reconhece que o percurso adotado deixa de atender a área de maior concentração de empregos da avenida Faria Lima.
Cronograma e extensão
O projeto básico deve ser entregue no primeiro trimestre de 2027, etapa que permitirá a contratação das obras de implantação. A última estimativa divulgada pelo Metrô é de 1,2 milhão de passageiros por dia.
A linha deve ligar a Lapa a Santo André, no ABC, com 32 quilômetros de extensão e 24 estações. O traçado também alcançará Saúde, Cursino e São Bernardo do Campo. O Metrô estima oito anos de obras. A licença ambiental prévia foi obtida em 2024.



