O fotógrafo Marcello Cavalcanti registrou Medrosa, uma onça-pintada, sobre um tronco ao lado dos filhotes Selva e Kairo no Parque Estadual Encontro das Águas, em Poconé, a 104 km de Cuiabá. A fotografia foi feita no fim da tarde de 18 de setembro, durante uma expedição no Pantanal de Mato Grosso.
A cena também foi filmada por integrantes do grupo que acompanhava a atividade, entre eles Andréia Forno, aluna de Marcello. Os animais ficaram juntos por poucos minutos. De acordo com o fotógrafo, a fêmea havia se abrigado com os filhotes em uma área formada por uma árvore caída e folhas. No fim do dia, ela deixou o esconderijo, atravessou o rio e subiu no tronco.
Marcello produziu 419 fotografias durante o momento. Os três chegaram a permanecer deitados por cerca de três minutos, antes de mudarem de posição, voltarem a se movimentar e brincarem. O fotógrafo acompanha Medrosa desde 2021 e já havia registrado outras ninhadas da fêmea. Para ele, o destaque foi a disposição dos animais no tronco, com os filhotes lado a lado.
Interação entre mãe e filhotes
Os dois filhotes são machos e, segundo Marcello, passam por uma fase de contato intenso com a mãe e entre si. Eles brincam, mordem e exploram o ambiente enquanto permanecem próximos de Medrosa.
A bióloga Julia Ghion afirma que esse comportamento é compatível com o desenvolvimento de jovens onças-pintadas ainda dependentes da mãe. As interações podem ajudar na coordenação motora, no equilíbrio e no controle da força da mordida. Ela ressalta, porém, que uma única observação não permite dizer que determinada brincadeira esteja ensinando uma técnica específica de caça.
O uso de árvores também aparece no desenvolvimento da espécie. Observações realizadas no Pantanal entre 2013 e 2020 e reunidas em um estudo publicado em 2023 na revista Acta Ethologica registraram 252 episódios de onças subindo em árvores. Os filhotes tiveram maior probabilidade de usar essas estruturas do que os adultos. Os pesquisadores indicaram que as árvores podem servir como áreas de descanso e refúgio para fêmeas e filhotes.
Para Julia, esse ambiente pode contribuir para o equilíbrio, a coordenação, a capacidade de subir e descer, a exploração e a avaliação de riscos. A bióloga também pondera que não há base para concluir que Medrosa estivesse ensinando os filhotes a caçar ao levá-los para a árvore.
Dependência e acompanhamento
Um estudo de longo prazo publicado no Journal of Mammalogy em 2023 calculou em 17,6 meses a idade média em que os filhotes se tornam independentes. A pesquisa acompanhou 21 fêmeas e 38 ninhadas. Entre os 27 machos jovens monitorados, todos deixaram a área natal; entre as fêmeas, 63,6% permaneceram nela.
Julia disse que o período de dependência é importante para a formação dos jovens. Nessa fase, eles desenvolvem habilidades ligadas ao deslocamento, à exploração do território, à identificação de locais seguros, à caça, ao manuseio de presas, à avaliação de riscos e ao uso de diferentes estruturas do habitat.
Marcello frequenta a região de Porto Jofre, onde fica o parque, desde 2021 e afirma ter feito mais de 170 avistamentos de onças-pintadas no local. Ele já fotografou Medrosa no mesmo tronco em outra ocasião e acompanhou ninhadas anteriores. Um dos filhotes que registrou, chamado Pantaneiro, foi fotografado novamente depois de adulto, na mesma árvore em que havia aparecido com a mãe.
Para Julia, observar a mesma fêmea em diferentes períodos reprodutivos pode ajudar a entender o tamanho das ninhadas, o intervalo entre reproduções, a sobrevivência dos filhotes, a idade de independência, o uso do espaço e as mudanças de comportamento. O acompanhamento dos dois machos de Medrosa poderá mostrar como ocorre a transição até a independência.
Quando a fêmea saiu do esconderijo, havia poucos barcos no Corixo Negro, segundo Marcello, porque a luz do dia estava terminando. Depois de alguns minutos no tronco, os animais deixaram o local e a noite chegou.



