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Polícia Civil de SP apura reclassificação de morte ligada a seguros de R$ 85 milhões

Mudança de suicídio para homicídio permitiu pedido de indenização; investigação considera áudios, depoimentos e documentos judiciais.

Polícia Civil de SP apura reclassificação de morte ligada a seguros de R$ 85 milhões
Foto: Reprodução/Inquérito Policial

A Corregedoria Geral da Polícia Civil de São Paulo investiga se um investigador participou de uma articulação para favorecer empresários interessados no pagamento de seguros de vida que ultrapassam R$ 85 milhões. O caso envolve a morte do empresário José Matheus Silva Gomes, de 31 anos, ocorrida em 2 de julho de 2021.

A morte foi registrada inicialmente como suicídio e, cinco meses depois, passou a ser classificada como homicídio. A alteração permitiu que Nayá de Arruda Singarini, ex-mulher de José Matheus e única beneficiária das apólices, solicitasse o pagamento integral das indenizações. Pela legislação, a cobertura principal pode ser recusada quando o suicídio ocorre nos dois primeiros anos de vigência do contrato.

José Matheus havia contratado seis apólices com a Prudential, no valor de R$ 66,5 milhões. Outros seguros levariam o total para mais de R$ 85 milhões. A seguradora recorreu à Justiça para suspender os pagamentos até que fossem esclarecidas as dúvidas sobre a morte.

Mudança na investigação

A Polícia Civil abriu inquérito em 7 de julho de 2021. A hipótese inicial de suicídio foi baseada em um laudo pericial que indicou uma pistola próxima ao corpo, um disparo na região da têmpora e ausência de sinais de luta ou resistência. Um laudo do Instituto Médico Legal também sustentou essa possibilidade.

Em 10 de dezembro de 2021, o investigador-chefe Marcos Vinícius de Souza Melo e outros dois agentes produziram um relatório classificando o caso como homicídio de autoria desconhecida. Cinco dias depois, o delegado Marcos César Rodrigues Santos determinou a mudança formal da natureza da ocorrência, citando divergências observadas durante a apuração.

Os documentos não apontaram suspeitos nem apresentaram prova concreta de participação de terceiros. A mudança foi apoiada em elementos circunstanciais, como o ângulo do disparo, aspectos da vida pessoal da vítima e sua condição física.

O relatório destacou que José Matheus era destro, embora alguns indícios sugerissem que o disparo havia sido feito com a mão esquerda. Também levantou dúvidas sobre a capacidade de acionar o gatilho por causa da síndrome do túnel do carpo, problema no pulso tratado pelo empresário.

A médica cirurgiã Raquel Bernardelli, que atendia José Matheus, declarou à polícia que a síndrome não afeta diretamente a força muscular. Segundo ela, não seria possível afirmar que ele estava incapacitado sem exames específicos.

Áudios e suspeitas

As suspeitas sobre a possível atuação do investigador ganharam força depois que 34 áudios foram anexados a ações judiciais em andamento em São Paulo. As gravações são atribuídas a sócios de José Matheus e a investidores que afirmam ter sofrido prejuízos em negócios relacionados ao empresário.

Os diálogos sugerem que os sócios sabiam antecipadamente da mudança para homicídio e que o investigador responsável teria interesse pessoal na liberação do seguro por manter relação de amizade com uma pessoa que teria sido vítima de José Matheus.

Em um dos trechos apresentados à Justiça, Gabriel Pimentel Mariano e Silva, sócio do empresário, menciona a troca do responsável pelo caso e a suposta proximidade do investigador-chefe com um investidor. A Corregedoria também analisa conversas sobre o andamento do inquérito, perícias e documentos necessários para pedir a indenização.

Os três sócios — José Matheus, Gabriel e Victor Hugo Conservani Coutinho — eram alvo de ações movidas por investidores, que os acusavam de envolvimento em um suposto esquema de pirâmide financeira. Uma das gravações menciona ainda um reconhecimento de dívida assinado por Nayá, cujo pagamento dependeria do recebimento dos seguros.

Depois da reclassificação, os diálogos registram discussões sobre medidas para pressionar a Prudential a pagar. Entre as ideias citadas estavam recorrer ao Procon, organizar protestos em um evento da seguradora e divulgar uma reportagem de televisão sobre a recusa da indenização.

Apuração continua

O delegado responsável apresentou o relatório final em novembro de 2022. Embora tenha mantido a classificação de homicídio, concluiu que não havia elementos para identificar o autor e encerrou a investigação como crime de autoria desconhecida.

O Ministério Público pediu novas diligências, e o caso continua em investigação. A pedido da Promotoria, um exame de DNA está sendo feito no sangue encontrado dentro do veículo para confirmar se a pessoa morta era José Matheus.

O investigador citado nas suspeitas prestou depoimento à Corregedoria e negou irregularidades. O órgão informou que realizou diligências, análises técnicas e ouviu outras pessoas. Uma acareação entre os envolvidos poderá ser feita se forem encontradas contradições relevantes. Em nota, a Polícia Civil afirmou: “A instituição reafirma seu compromisso com a transparência, a legalidade, a integridade e a correta e necessária elucidação dos fatos”.

Em depoimento prestado em julho de 2024, Gabriel negou ter recebido ajuda do policial para alterar a classificação da morte. Ele disse que apresentou essa versão aos investidores para acalmá-los e afirmou, por meio do advogado, que a dinâmica dos fatos será definida de forma isenta pelas autoridades competentes.

Texto produzido pela Redação Nexo Econômico com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

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