A principal região produtora de pimenta chili do Paquistão está enfrentando queda na produtividade, custos maiores e dificuldades para manter o cultivo diante de eventos climáticos extremos. Em Kunri, no sudeste do país, agricultores passaram a alterar o calendário de plantio, usar mais fertilizantes e diversificar as lavouras para tentar reduzir as perdas.
A área responde por mais de 85% da produção paquistanesa de pimenta chili. Em um ano de boa colheita, o mercado local chega a negociar mais de 200 toneladas por dia durante a temporada posterior à colheita. Mas, neste ano, o calor impediu o plantio até março, e produtores precisaram adiar a semeadura para maio.
Plantio reduzido e mais custos
A mudança encurtou o período de cultivo e deixou as plantas jovens expostas por mais tempo ao estresse térmico. Ahsan Ali Dars, agricultor de Kunri, havia antecipado o plantio para março em anos anteriores, numa tentativa de fazer as mudas crescerem antes das temperaturas mais altas do verão. Agora, ele aplica muito mais fertilizante no solo para manter as plantas vivas até a colheita, que começa em setembro.
No fim de julho, as primeiras chuvas das monções chegaram aos campos de Dars. A precipitação, porém, também pode trazer novos prejuízos, porque o excesso de água ameaça destruir as plantações, enquanto a falta de chuva compromete o desenvolvimento das plantas. “Se chover demais, a lavoura será destruída”, disse Dars. “Se não chover, também será desastroso.”
O Paquistão está entre os países mais vulneráveis do mundo à mudança climática. A agricultura representa quase um quarto da economia nacional e emprega metade da força de trabalho. Em 2022, inundações destruíram quase 1,8 milhão de hectares de terras agrícolas, e agricultores das províncias de Sindh e Punjab dizem que os efeitos ainda permanecem.
Secagem aumenta desperdício
O risco climático continua depois da colheita. Em setembro, as pimentas são espalhadas no chão e ficam secando por 10 dias. Se a umidade aumentar, a produção pode ser afetada por fungos. A secagem tradicional também fica mais vulnerável à névoa que aparece à noite.
Muhammad Khan, autoridade distrital de Kunri, estima que até um terço da produção seja perdido nas etapas de secagem e processamento. Segundo ele, os grandes proprietários conseguem absorver melhor os custos adicionais provocados pelas mudanças no clima, enquanto os pequenos produtores têm menos capacidade de adaptação.
Agricultores de Kunri pedem há anos instalações modernas para realizar a secagem em um ambiente controlado. Muhammad Saleem, corretor de pimentas no mercado local, afirmou que promessas de abertura de um centro não avançaram.
O governo de Sindh aprovou recentemente um novo mercado de pimentas em Kunri, com armazéns e espaços para leilões destinados a proteger melhor a colheita. A medida ocorre em meio ao aumento do preço dos fertilizantes, à queda da produtividade e a dificuldades persistentes de irrigação.
Diversificação das propriedades
Kunri tem 25 mil habitantes e fica na província de Sindh, cerca de 110 quilômetros a oeste da fronteira com a Índia. A cidade é conhecida como a capital nacional do cultivo de pimenta chili. Em novembro passado, após uma colheita bem-sucedida, centenas de produtores e compradores se reuniram no mercado, onde as pilhas de pimentas ultrapassavam 2,4 metros de altura.
A produção também movimenta trabalhadores diaristas e compradores durante a temporada. Em dias de mercado, a poeira pode fazer os olhos lacrimejarem e irritar a garganta enquanto as pimentas são negociadas e transportadas.
Diante da instabilidade, muitos agricultores começaram a plantar outras culturas. Neste ano, Dars reservou 1,6 hectare de sua propriedade para 800 pés de mamão. Ainda assim, ele avalia que os eventos climáticos extremos podem ameaçar qualquer cultivo. “Parece que a natureza já não está mais do nosso lado”, disse.



