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Redes de apoio e planejamento financeiro ganham espaço na velhice sem filhos

Queda da fecundidade e envelhecimento da população ampliam a busca por amizades, família, recursos e serviços para os cuidados futuros.

Redes de apoio e planejamento financeiro ganham espaço na velhice sem filhos
Foto: Jose Antonio Alba/Pixabay

A queda da fecundidade e o aumento da população idosa estão mudando a forma como pessoas sem filhos planejam o próprio envelhecimento. Em vez de considerar os descendentes como responsáveis pelos cuidados futuros, elas citam amizades, familiares, parceiros, planejamento financeiro e serviços especializados como partes de uma rede de apoio.

Nos anos 1960, a taxa de fecundidade era de 6,28 filhos por mulher em idade reprodutiva. Em 2022, o índice caiu para 1,55 filho por mulher, segundo o Censo Demográfico do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). No mesmo ano, havia mais de 32 milhões de brasileiros com mais de 60 anos, um aumento de 56% em relação ao levantamento de 2010.

Amigos, parentes e autonomia

A publicitária Preta Araújo, de 34 anos, afirma que pretende cuidar de si mesma e se preparar desde cedo para manter a autonomia. Ela também espera ter recursos para pagar os cuidados necessários e conta com a possibilidade de formar uma rede com amigos que compartilham a decisão de não ter filhos.

Araújo imagina um futuro em que esse grupo possa morar próximo, em casas separadas, mas com apoio mútuo. A psicóloga Lara Vieira também considera os vínculos de amizade essenciais. Depois de atender uma idosa que tinha filhos, mas vivia sem a presença deles, Vieira combinou com a melhor amiga que as duas poderiam morar juntas aos 65 anos, caso estivessem solteiras. Se apenas uma estivesse sem parceiro, a outra a acolheria.

Vieira trabalha com mulheres vítimas de violência doméstica e familiar e diz acompanhar idosas que, mesmo tendo filhos ou companhia, convivem com relações negativas ou violentas. Para ela, ter filhos não deve ser tratado como garantia de cuidado. A psicóloga afirma que pretende ajudar os próprios pais se for necessário, mas não considera que uma criança deva nascer com essa obrigação.

Irmãos, sobrinhos e primos próximos também podem compor essa rede para quem não teve filhos ou não pôde tê-los. A psicóloga Valmari Aranha, da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG), afirma que manter vínculos sociais durante a vida ajuda a enfrentar a solidão e suas consequências para a saúde física, mental e o envelhecimento.

Um estudo publicado no Jama Network Open por pesquisadores da Universidade de Michigan, nos Estados Unidos, analisou dados de 2,6 mil idosos com limitações para atividades. Os pesquisadores estimaram que cerca de 2 milhões de idosos com limitações recebiam algum tipo de ajuda de amigos, incluindo vizinhos. O transporte para compras e consultas médicas era a principal atividade desses cuidadores.

Casais e novas configurações familiares

Para casais sem filhos, o parceiro pode ser a principal referência de cuidado ao longo do tempo. O diretor de marketing Fabio Zelenski, de 40 anos, e a estilista Ana Paula Mendes, de 41, estão juntos há oito anos e compartilham a decisão de não ter filhos. Eles planejam envelhecer com companhia e boas conversas, além de manter uma rede de amigos com escolhas semelhantes.

O Censo Demográfico mostra que a proporção de casais sem filhos dobrou entre 2000 e 2022. Eles representavam 12% dos arranjos familiares formados por casais em 2000. Em 2022, passaram a responder por 24%.

O psicólogo Marcos Souza, de 37 anos, e o marido desistiram de ter um filho. Souza diz que pretende ser um tio presente para os filhos dos amigos e relaciona seu futuro à aposentadoria, às amizades, à família e aos próprios cuidados.

As configurações familiares formadas pela população LGBTQIA+ também ganharam visibilidade. Nem todas essas pessoas desejam buscar alternativas para ter filhos, e algumas associam a vida sem crianças a mais liberdade para cuidar de si e do relacionamento.

O cuidado como serviço

Guardar dinheiro para pagar por um local confortável ou por profissionais é outra possibilidade considerada por quem não planeja ter filhos. Araújo avalia que reservar recursos para a velhice pode fazer mais sentido do que ter uma criança com a expectativa de receber cuidados no futuro.

A socióloga Helena Hirata, diretora emérita de pesquisa do Centro Nacional de Pesquisa da França e pesquisadora convidada do Departamento de Sociologia da USP, afirma que o envelhecimento da população tende a ampliar a profissionalização do cuidado. No Brasil, porém, ainda predomina o familiarismo, em que as famílias assumem grande parte da assistência a idosos e pessoas dependentes.

Hirata também aponta uma transição para um modelo em que o Estado e o mercado participam mais dos cuidados. Em dezembro passado, o governo federal lançou o Plano Brasil que Cuida, com políticas voltadas às pessoas que precisam de ajuda e aos cuidadores. As medidas ainda são incipientes, e o governo promete lançar dezenas de iniciativas relacionadas ao projeto nos próximos anos.

Para o cientista social Jorge Félix, pesquisador sobre envelhecimento e professor na pós-graduação em gerontologia da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH-USP), a ideia de que filhos necessariamente cuidarão dos pais não acompanha a vida adulta atual. Jornadas extensas, trabalho em outras cidades ou países e mudanças nas relações familiares podem reduzir a convivência entre pais e filhos sem que isso represente descaso.

No Japão e na França, governos locais já financiam programas relacionados ao cuidado. Para Hirata, o Brasil também deve avançar na oferta de instituições e cuidadores particulares. A profissionalização ainda é recente no país, mas tende a ganhar espaço diante do envelhecimento considerado importante e rápido da população.

Texto produzido pela Redação Nexo Econômico com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

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