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Roberto Schwarz propõe uma leitura histórica das formas literárias brasileiras

Aos 88 anos, crítico relança livro de estreia e reafirma a literatura como forma de investigar as relações sociais do país.

Roberto Schwarz propõe uma leitura histórica das formas literárias brasileiras
Foto: Folhapress

Aos 88 anos, Roberto Schwarz relança A Sereia e o Desconfiado (1965), seu primeiro livro de ensaios, em um momento que convida à revisão de uma obra construída em torno das relações entre literatura, história e sociedade. O ponto central de sua crítica é que as formas literárias brasileiras não podem ser separadas da formação social do país, marcada pela combinação entre escravismo, clientelismo e ideário liberal-burguês.

A contribuição de Schwarz não está apenas nas interpretações de autores específicos. Ao longo de seus livros, ele retorna aos mesmos problemas, acrescenta novas dimensões e aproxima obras, períodos e linguagens diferentes. O resultado é uma visão articulada da literatura brasileira, na qual os escritores enfrentam materiais históricos comuns, mas encontram soluções formais particulares.

Machado de Assis e a formação do romance

Os estudos sobre Machado de Assis ocupam o centro da produção crítica e teórica de Schwarz. Em As Ideias Fora do Lugar, ensaio de 1972 incluído em Ao Vencedor as Batatas (1977), o crítico examinou o descompasso aparente entre ideias modernas importadas e a realidade brasileira. Sua interpretação deslocava o problema: a dificuldade não estaria simplesmente na origem estrangeira dessas ideias, mas no modo como elas funcionavam em uma sociedade escravista organizada por relações de favor.

Nesse quadro, práticas senhoriais e valores liberais não apareciam como elementos incompatíveis. Eles formavam uma combinação social estável, ainda que contraditória, entre proprietários, dependentes e escravizados. A literatura, por sua vez, incorporava essa tensão ao tentar adaptar o romance moderno à experiência brasileira.

A análise de Senhora, de José de Alencar, mostra esse impasse. A narrativa apresenta uma forma importada que não consegue integrar plenamente as relações sociais presentes em suas margens. Para Schwarz, esse desajuste não é apenas uma falha da obra: ele se torna parte da matéria que o escritor brasileiro precisa elaborar.

Em Um Mestre na Periferia do Capitalismo (1990), a leitura de Memórias Póstumas de Brás Cubas identifica uma saída formal para esse problema. A volubilidade do narrador permite incorporar referências à modernidade sob o comando arbitrário do defunto-autor. A solução machadiana, nessa leitura, transforma a estrutura social de dominação em princípio de composição e produz uma crítica à ordem brasileira e ao capitalismo burguês.

Uma matéria histórica que reaparece

Schwarz chamou de matéria brasileira o conjunto de relações sociais produzido pela história do país e do mundo, incluindo os pontos de vista associados a essas relações. Essa matéria não se limita aos temas de uma obra: aparece na linguagem, nas tradições, nas situações narrativas e nas formas escolhidas pelos escritores.

O conceito também permite aproximar trabalhos muito diferentes. O diário Minha Vida de Menina, de Helena Morley, e Dom Casmurro, de Machado, por exemplo, são comparados a partir do universo social que organiza suas respectivas prosas. A mesma estrutura histórica pode sustentar tanto uma obra literária de grande elaboração quanto um diário sem pretensão artística.

A proposta de Schwarz abre caminho para uma história da literatura que não seja apenas uma sucessão de autores e obras. Ele sugere investigar como diferentes escritores transformaram problemas comuns em soluções específicas. Entre os exemplos mencionados estão a rispidez de Graciliano Ramos, a reflexão sobre a preguiça em Mário de Andrade, a utopia modernista de Oswald de Andrade e o profetismo de Glauber Rocha. Também aparecem Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de Melo Neto.

Da ditadura às questões contemporâneas

A evolução da prosa de Schwarz pode ser observada em livros de momentos distintos. Cultura e Política, 1964-69, depois reunido em O Pai de Família (1978), foi escrito no exílio francês e relacionou produção cultural e política durante os primeiros anos da ditadura. O estudo também trata do aumento da repressão a partir de 1968.

Em Seja como For (2019), ensaios e entrevistas cobrem um período que vai de 1976 a 2019. As entrevistas ampliam a exposição dos argumentos e permitem ao crítico comentar procedimentos, questões laterais e consequências possíveis de suas análises.

No discurso ao receber o título de professor emérito da Unicamp em 2022, Schwarz discutiu mudanças nos estudos literários, incluindo a presença de questões de raça, gênero e classe. Também defendeu que a crítica preserve independência e se coloque a serviço das obras, não dos autores. Para ele, a literatura constitui uma maneira própria de conhecer e investigar o mundo, distinta da ciência e da teoria.

A retomada de sua obra, portanto, não depende apenas da repetição de suas interpretações. Ela pode servir à investigação de problemas que continuam abertos na literatura e na crítica, especialmente os ligados à maneira como as obras transformam relações sociais em linguagem, narrativa e forma.

Texto produzido pela Redação Nexo Econômico com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

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