Uma pausa prolongada na atividade dos neurônios pode indicar que uma crise epiléptica está prestes a começar. Pesquisadores confirmaram o padrão em pacientes e em modelos computacionais e propõem usá-lo para acionar estímulos elétricos preventivos.
O estudo foi divulgado na revista Scientific Reports. A epilepsia é caracterizada por descargas elétricas anormais e excessivamente sincronizadas no cérebro, que podem causar convulsões e comprometer funções físicas e cognitivas. O distúrbio afeta cerca de 52 milhões de pessoas no mundo.
“Esse silenciamento dos neurônios já havia sido observado em outros estudos, mas pudemos confirmá-lo tanto em pacientes quanto em modelos computacionais”, afirma Fernando da Silva Borges, pesquisador colaborador da Universidade Federal do ABC (UFABC) e coautor do artigo.
Possível uso antes da crise
Segundo Borges, o silêncio neuronal aparece de 40 a 160 milissegundos antes de uma crise epiléptica. Embora seja um intervalo curto, os pesquisadores consideram que ele pode permitir a atuação automatizada de um dispositivo antes do início da convulsão.
Nas simulações, o uso desse padrão como biomarcador para orientar intervenções anticonvulsivas, como a aplicação de estímulo elétrico, reduziu em até 93% a duração das crises. A proposta é combinar dispositivos já existentes com uma estratégia de neuromodulação capaz de identificar o sinal e intervir antes da crise.
Entre os equipamentos citados estão o estimulador do nervo vago e sistemas de feedback, que monitoram a atividade cerebral em tempo real. Atualmente, esses dispositivos detectam a crise quando ela já começou. A nova abordagem pretende reconhecer o silêncio neuronal e enviar sinais a um nervo que estimula o cérebro antes da ocorrência da convulsão.
A intervenção usaria uma pequena corrente elétrica para ativar os neurônios. De acordo com a explicação dos pesquisadores, isso evitaria que o fluxo de potássio nas células atingisse níveis críticos e impediria a formação da atividade elétrica associada à crise. O estímulo afetaria apenas 1% dos neurônios responsáveis por excitar a atividade cerebral.
Epilepsia refratária
Existem mais de 30 medicamentos aprovados para tratar a epilepsia, mas entre 30% e 40% dos pacientes não respondem à terapia farmacológica. Esses casos são classificados como epilepsia refratária.
Uma alternativa é a estimulação cerebral, que modula os impulsos elétricos por meio de eletrodos implantados na cabeça ou em nervos aferentes, responsáveis por conduzir sinais do corpo ao cérebro e à medula espinhal central.
O trabalho reuniu pesquisadores da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), da Universidade de São Paulo (USP), da UFABC e da Universidade Estadual de Nova York, nos Estados Unidos.




