SÃO PAULO — A galeria Vermelho passou a representar o Arquivo George Love com a exposição “To Love”, que também reúne trabalhos de Claudia Andujar e amplia o diálogo entre os dois fotógrafos. A mostra tem curadoria de Eder Chiodetto e é formada quase inteiramente por ampliações contemporâneas de grande formato, feitas a partir dos arquivos dos artistas.
Andujar e Love se conheceram em Nova York, em torno da Association of Heliographers, cooperativa de fotógrafos que funcionou por um período curto em meados dos anos 1960. Depois de viajarem pela América do Sul, eles se estabeleceram em São Paulo em 1966 e se casaram no ano seguinte, em Nova York. A união durou até 1974.
A montagem explora a circulação de técnicas entre os dois. Solarizações, exposições duplas e prolongadas, filmes infravermelhos e mudanças no processamento químico aparecem em diferentes conjuntos de imagens. Na entrada, retratos de ambos sugerem a troca de câmeras, olhares e procedimentos que atravessa a exposição.
A colaboração também passou pela revista Realidade, da editora Abril, e pelo Masp. Em 1971, os dois publicaram imagens em uma edição especial sobre a Amazônia. Andujar organizou cursos, dirigiu o laboratório e foi convidada a supervisionar o novo Departamento de Fotografia do museu. Love ministrou um curso que apresentava a fotografia como “realidade em si”, aberta à reprodução, à transformação e a novas formas de apresentação.
Em fevereiro de 1971, Love coordenou no vão-livre e nos jardins do Masp o happening audiovisual “Som, Imagem e Luz”, com projeções, jogos de luz e uma trilha que incluía cantos do povo indígena xikrin e gravações de Jimi Hendrix. Os dois também organizaram exposições no museu, entre elas “Hileia Amazônica”.
Parte da pesquisa realizada na região foi publicada no fotolivro “Amazônia” (Praxis, 1978), com projeto gráfico de Wesley Duke Lee. Imagens da publicação ocupam a sala principal do primeiro andar da Vermelho, em uma montagem baseada em ampliações, justaposições e contrastes cromáticos.
O conjunto inclui fotografias de Andujar feitas entre os yanomami, grupo que ela encontrou durante uma viagem de trabalho para a Realidade. A experiência redefiniu sua trajetória. A exposição aproxima esse trabalho de uma investigação experimental, na qual a imagem não fica restrita à descrição etnográfica e procura se abrir à cosmologia yanomami. A série “O Reahu”, apresentada em um díptico vermelho, concentra essa abordagem.
No segundo andar, a série “Ponta de Filme”, de Love, leva a pesquisa para perto da abstração. Filmes riscados, furados, velados ou mal processados formam campos de cor e transformam marcas do processo fotográfico em imagem.
Andujar é representada pela Vermelho desde 2003. A galeria afirma manter uma parceria voltada também à destinação de parte da renda obtida com a venda de obras sobre os yanomami para iniciativas relacionadas a esse povo.
A exposição recupera ainda a produção de Love, que permaneceu relativamente pouco conhecida, com exceção de uma mostra no Museu de Arte Moderna de São Paulo, em 2024. O Arquivo George Love passa a integrar a representação da Vermelho em uma apresentação conjunta com a obra de Andujar.



