O acordo internacional para mobilizar US$ 1,3 trilhão em financiamento climático está sob risco diante da pressão dos Estados Unidos sobre bancos multilaterais de desenvolvimento e países doadores. O Banco Mundial já anunciou que deixará de usar como referência a meta de direcionar 45% de seus financiamentos a projetos com benefícios climáticos.
O Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e o Banco Asiático de Desenvolvimento (BAD) avaliam mudanças semelhantes, segundo pessoas que acompanham as conversas. No caso do BID, houve pressão para abandonar a meta de destinar 45% dos financiamentos ao clima. O banco é a principal fonte de financiamento multilateral para a América Latina e o Caribe.
Em 2025, o BID elevou em 46% o financiamento climático em relação ao ano anterior, para US$ 9,95 bilhões. O BAD, com sede em Manila, também analisa o futuro de sua meta. No ano passado, comprometeu US$ 13,5 bilhões de recursos próprios com financiamento climático, pouco mais da metade do total assumido no período.
O BID afirmou que os volumes de recursos são importantes para acompanhar os esforços e o nível de ambição, mas não medem sozinhos os resultados. A instituição disse estudar uma forma de dar mais peso a indicadores de impacto e resultados, sem alterar seu compromisso com a ação climática, suas políticas ou prioridades operacionais.
O BAD informou que as metas continuam em vigor e serão revistas em 2027, dentro de seu procedimento institucional regular. A instituição disse estar concentrada no apoio à adaptação a enchentes, secas, elevação do nível do mar e eventos climáticos extremos, além do financiamento de fontes de energia e transportes mais acessíveis, confiáveis e limpos.
Pressão sobre o financiamento internacional
Durante o governo do presidente Donald Trump, os Estados Unidos classificaram as mudanças climáticas como uma “farsa” e pressionaram bancos multilaterais e países a reduzir gradualmente o financiamento verde. O governo também defendeu o recuo nas restrições ao financiamento de combustíveis fósseis.
Uma autoridade da área de financiamento ao desenvolvimento afirmou que os bancos multilaterais com grande participação acionária dos Estados Unidos provavelmente abandonarão suas metas climáticas. Reino Unido e Alemanha também enfrentam pressão orçamentária e política e devem reduzir o financiamento internacional destinado a ajudar países em desenvolvimento a abandonar combustíveis fósseis ou enfrentar os efeitos das mudanças climáticas.
A contribuição dos bancos multilaterais para empréstimos a países de renda baixa e média chegou a US$ 103 bilhões no ano passado, alta de 20% em relação ao ano anterior. Essas instituições usam capital público dos países doadores para captar recursos maiores, a juros baixos, nos mercados de capitais e trabalhar com o setor privado.
A retirada das metas pode dificultar o cumprimento dos compromissos assumidos por países desenvolvidos. Eles concordaram em mobilizar pelo menos US$ 300 bilhões por ano para nações em desenvolvimento até 2035 e trabalhar para alcançar US$ 1,3 trilhão no mesmo período.
O Reino Unido reduziu sua ajuda climática internacional para 6 bilhões de libras nos próximos três anos, ante a meta anterior de 11,6 bilhões de libras em cinco anos. O país também cortou pela metade, no início deste ano, seu compromisso com o Fundo Verde para o Clima da ONU. Na Alemanha, uma análise do Greenpeace apontou que Berlim dificilmente cumprirá a meta de disponibilizar 6 bilhões de euros por ano.
Em 2024, o financiamento climático alcançou US$ 2 trilhões. A maior parte dos recursos, porém, foi destinada a países desenvolvidos e à China.



