SÃO PAULO — A alfabetização na idade esperada continua sendo um dos principais desafios da educação brasileira. Seis autoridades ouvidas sobre as prioridades para o próximo presidente apontaram o atraso no letramento como o problema que deve ser enfrentado primeiro.
A dificuldade aparece na rotina de estudantes da rede pública. Kauê, 10, aluno do 4º ano do Ensino Fundamental, ganhou medalhas em matemática, xadrez e mancala, mas ainda troca letras ao escrever. Kalleb, 9, estudante da mesma escola e da mesma série, tem dificuldade para ler frases simples e para registrar palavras de forma compreensível.
A mãe de Kauê, Ellem Priscila Gomes da Silva, 33, afirma que o filho consegue ler, mas não escreve corretamente. Ingrid Karem Aparecida Silva, 41, mãe de Kalleb, relata que muitas vezes não consegue identificar as letras anotadas pelo menino.
Pelas diretrizes do Ministério da Educação e da Base Nacional Comum Curricular, estudantes deveriam dominar o sistema alfabético e produzir textos simples com desenvoltura ao menos dois anos antes da etapa em que estão os dois alunos.
Medidas apontadas por especialistas
As propostas consideradas prioritárias incluem atenção à primeira infância, desde a gestação até os 6 anos, reforço escolar nos anos finais do Ensino Fundamental, expansão das escolas de tempo integral e formação presencial e prática para professores. Também foi citada a necessidade de usar critérios técnicos na escolha de gestores escolares.
Priscila Cruz, presidente-executiva do Todos Pela Educação, afirma que alunos com dificuldades na alfabetização podem chegar ao 9º ano sem dominar habilidades esperadas para o 5º ano. Para ela, as defasagens precisam ser corrigidas durante os anos finais do ensino.
Katia Smole, diretora-executiva do Instituto Reúna, relaciona o reforço escolar à redução da evasão. Segundo ela, é entre o 6º e o 9º ano que aumentam as reprovações e o desengajamento. A especialista defende uma política nacional para a passagem do 5º para o 6º ano.
O desempenho nessa fase também foi criticado por Mozart Neves Ramos, pesquisador da USP. “O Brasil está literalmente estagnado [do 6º ao 9º ano e no Ensino Médio] há mais de duas décadas e, nessa fase, estagnação significa retrocesso”, disse.
As mães de Kauê e Kalleb avaliam que os filhos teriam desempenho melhor se permanecessem mais tempo na escola. Claudia Costin, ex-diretora global de Educação do Banco Mundial, afirma que uma jornada ampliada aproximaria o país dos resultados das nações mais bem colocadas no Programa Internacional de Avaliação de Estudantes.
Na edição de 2025 do Pisa, o Brasil apareceu na 52ª colocação em leitura, na 67ª em ciências e na 71ª em matemática, em uma lista com 91 países e territórios. Costin compara a média brasileira de quatro horas diárias no Ensino Fundamental 2 com as sete a nove horas de jornada dos 40 primeiros colocados.
Gastos e formação de professores
Naercio Menezes Filho, professor do Insper e da USP, afirma que o desempenho educacional continua baixo apesar da expansão dos investimentos. Entre 2005 e 2025, o gasto por aluno da educação básica passou de R$ 3.450 para R$ 15.581, em valores atualizados em 2024 — aumento de 4,5 vezes. No mesmo período, a nota média da rede pública nos anos finais do Ensino Fundamental cresceu 20%, enquanto a do Ensino Médio avançou 12%.
Para o pesquisador, parte da ineficiência está em problemas anteriores à entrada da criança na escola. Ele cita falta de creches, assistência social e psicológica e saneamento básico. “Para que a criança se desenvolva, especialmente as que nasceram em famílias vulneráveis, todas estas partes têm que funcionar”, afirmou.
A preparação dos docentes também é apontada como obstáculo. Claudia Costin diz que oito em cada dez professores se formam por EAD em universidades privadas e que mesmo os graduados em universidades federais têm preparação excessivamente teórica. Carlota Boto, professora da Faculdade de Educação da USP, defende estágios orientados para aproximar a formação da prática, junto a melhorias estruturais e salariais.
Na escola frequentada por Kauê e Kalleb, faltou água durante a visita ao local. As tubulações haviam sido depredadas, e o portão com defeito permaneceu aberto durante a madrugada.
Planos dos candidatos
Os programas de governo dos dois líderes nas pesquisas apresentam propostas relacionadas a algumas das estratégias defendidas pelos especialistas, mas também deixam lacunas ou incluem temas sem respaldo técnico apontado pelos consultados.
O plano de Lula, do PT, não menciona medidas para garantir que gestores sejam nomeados com base no mérito nem explica como enfrentar a predominância da formação de professores por EAD.
Flávio Bolsonaro, do PL, propõe ampliar as escolas cívico-militares e preservar o papel das famílias na formação de valores. Essas medidas foram descritas como pautas de viés doutrinário que desviam a atenção de problemas considerados urgentes na educação.



