O Brasil precisa acelerar a exploração de petróleo para aproveitar a janela de oportunidade antes de uma eventual queda no consumo global, afirma Roberto Ardenghy, presidente do Instituto Brasileiro de Petróleo e Gás (IBP). Segundo ele, o país ainda tem recursos relevantes, mas disputa investimentos com Argentina, Guiana, Venezuela e países africanos.
“Nós temos uma janela curta. Um país que ainda tem hoje recursos relevantes de petróleo, que é o caso do Brasil, precisa ter pressa”, disse Ardenghy. Para o executivo, o próximo governo deveria dar mais agilidade principalmente ao licenciamento ambiental, além de enfrentar questões tributárias e relacionadas ao imposto de exportação.
A avaliação foi apresentada durante a ROG.e, feira do setor realizada no Rio de Janeiro. O evento recebeu 83 mil visitantes, reuniu 650 empresas expositoras e contou com delegações de Noruega, França, Reino Unido, Estados Unidos, China e Canadá.
Produção, demanda e segurança energética
Ardenghy afirmou que o Brasil se tornou mais atraente para a indústria por combinar produção crescente, estabilidade institucional e distância dos conflitos no Oriente Médio. Também citou a existência de democracia, Judiciário, agência reguladora e tradição de cumprimento de contratos como fatores reconhecidos pelos investidores.
O presidente do IBP disse que o consumo de petróleo deve se estabilizar e depois cair, embora haja diferentes estimativas para o início desse movimento: 2030, 2040 ou 2050. A entrada de carros elétricos tende a reduzir o uso de diesel e gasolina, mas, segundo ele, o petróleo continuará sendo demandado pela petroquímica e pela produção de fertilizantes.
Ardenghy afirmou que, por volta de 2032 ou 2033, a produção brasileira estará estabilizada, mas ainda haverá consumo, especialmente por causa da necessidade logística do país. Ele também relacionou a produção de gás natural à segurança alimentar, já que amônia e ureia dependem desse combustível e o Brasil importa fertilizantes.
Foz do Amazonas e descarbonização
Sobre a descoberta anunciada pela Petrobras na bacia da Foz do Amazonas, Ardenghy disse que já é possível afirmar a existência de um sistema petrolífero, mas que ainda são necessárias novas avaliações. Entre os pontos a serem analisados estão o volume do reservatório, sua continuidade, pressão, porosidade e qualidade do petróleo.
A Petrobras pediu licença para perfurar mais três poços na região. Para o executivo, a área também está ligada à segurança energética, diante da possibilidade de o Brasil voltar a importar petróleo por volta de 2037 ou 2038, conforme indicação da Empresa de Pesquisa Energética.
Ardenghy afirmou que a indústria do petróleo precisa reduzir suas emissões. Segundo ele, um barril produzido no pré-sal brasileiro emite 10 kg de CO₂, ou 8 kg nos melhores campos, enquanto a média mundial é de 25 kg. Ele também declarou que as emissões do setor de óleo e gás caíram 14% nos últimos três anos, apesar do aumento da produção.
“O mundo ainda vai depender do petróleo, e ele vai ser muito consumido”, disse. Na avaliação dele, o objetivo é que os combustíveis prestem seu serviço energético com a menor emissão possível, embora não seja possível chegar a zero, porque se trata de carbono ancestral levado à superfície e queimado.
Gás natural e abastecimento
O presidente do IBP afirmou que projetos já aprovados podem elevar significativamente a produção de gás natural no Brasil. O aproveitamento dependerá do preço e da infraestrutura disponível.
Ele destacou que o gás do pré-sal é produzido junto com o petróleo e está a 180 km da costa, a 2.000 metros de profundidade. Um gasoduto para esse cenário pode custar US$ 2,5 bilhões. O Brasil tem 12 mil quilômetros de gasodutos, enquanto os Estados Unidos possuem 600 mil quilômetros, segundo Ardenghy.
Sobre o fracking, o executivo afirmou que a tecnologia é controlada e citou a produção de 13 milhões de barris por dia nos Estados Unidos. Também mencionou Argentina, Canadá, China e Índia ao dizer que não há notícia de contaminação de lençóis freáticos nesses países.
A respeito dos efeitos da guerra no Irã, Ardenghy disse que o Brasil está entre os países mais preparados por ser exportador líquido de petróleo e contar com um parque de refino que atende grande parte do consumo. Segundo ele, até meados de outubro o mercado de combustíveis está abastecido, mas depois serão necessárias mais importações.
O executivo estimou em R$ 40 bilhões o gasto do governo até o final do ano para manter o subsídio ao diesel e à gasolina. Em royalties e participações especiais, a arrecadação adicional estaria na faixa de R$ 45 bilhões. Por isso, o IBP é contrário ao imposto de exportação.
Ardenghy afirmou que ainda não há disrupção no abastecimento, mas classificou o cenário como de atenção. Sobre a duração dos preços elevados do petróleo, disse que é difícil fazer uma previsão porque o futuro do conflito no Oriente Médio permanece incerto.



