SÃO PAULO — O Instituto Conhecer Brasil recebeu R$ 2 milhões em emendas parlamentares destinadas a dois projetos em Pirassununga, no interior de São Paulo. Auditorias da Controladoria-Geral da União (CGU) apontaram problemas na execução, na fiscalização e na comprovação de entregas. Os recursos foram indicados pelo deputado federal Mario Frias (PL-SP) e repassados pelos ministérios da Ciência, Tecnologia e Inovação e do Esporte.
A Polícia Federal realizou buscas nesta quinta-feira (10) contra o parlamentar, a presidente do instituto, Karina Ferreira da Gama, e fornecedores. A medida foi autorizada pelo ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), no âmbito da operação Make Up.
Projetos receberam R$ 1 milhão cada
O projeto Jovem Empreendedor recebeu R$ 1 milhão do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação em 17 de fevereiro de 2025. A proposta previa materiais educativos e a capacitação de 250 multiplicadores para atender 2.250 estudantes do 4º e do 5º anos do ensino fundamental em escolas públicas de Pirassununga.
O relatório do instituto informou a produção de 2.500 kits físicos, a implantação da plataforma digital e a preparação do conteúdo pedagógico. Também registrou, porém, que ainda faltavam o treinamento operacional, a formação das turmas e o início das atividades com os estudantes. Os comprovantes das ações com as turmas seriam apresentados posteriormente.
O pagamento de R$ 1 milhão foi distribuído entre seis empresas. A Dinâmica Editora e Distribuidora de Livros recebeu R$ 400 mil por kits pedagógicos físicos; o Instituto Super Poder Educacional, R$ 300 mil pelo kit digital; e a MTS Assessoria e Consultoria, R$ 150 mil pela manutenção da plataforma.
A LF&P Consulting Apoio Administrativo recebeu R$ 80 mil, dos quais R$ 50 mil eram destinados a serviço jurídico e R$ 30 mil a contabilidade e apoio administrativo. A Marcelo Machado 7 Comunica recebeu R$ 50 mil por divulgação, e a Projetus, R$ 20 mil por consultoria.
Cinco dessas empresas receberam juntas R$ 980 mil e aparecem como alvos de busca na decisão do STF. A Projetus não consta nessa relação.
A vigência do Jovem Empreendedor terminou em 11 de janeiro de 2026. O instituto pediu uma extensão de 12 meses em 28 de maio, quando o prazo já havia terminado. Segundo a CGU, o próprio pedido mencionava a necessidade de ainda organizar a participação das escolas, mobilizar as famílias, preparar os espaços e realizar o atendimento das crianças.
O ministério recusou a prorrogação em 2 de junho. Em 9 de julho, emitiu parecer técnico pela rejeição das contas, sob o argumento de que o objeto da parceria não havia sido cumprido. O instituto foi notificado no dia seguinte e recebeu 30 dias para apresentar defesa e documentos.
Apesar disso, a consulta ao Transferegov realizada nesta quinta-feira mostrava os objetivos do projeto como alcançados integralmente.
Auditoria questionou materiais e aulas de combate
O projeto Lutando pela Vida recebeu R$ 1 milhão do Ministério do Esporte em 29 de outubro de 2025. A iniciativa previa atividades de esportes de combate para 500 beneficiários, distribuídos em dois núcleos de Pirassununga. O termo tinha valor total de R$ 1.499.949 e vigência até 28 de agosto de 2027.
A contratação de maior valor foi feita com a Pulsa Uniformes e Camisetas Personalizadas: R$ 457.818,78 por 16 itens, incluindo quimonos, faixas, uniformes e 120 placas de tatame. O pagamento integral ocorreu em 26 de maio de 2026.
A CGU afirmou que não havia registro contemporâneo suficiente da entrega. Em respostas dadas aos auditores em 03 de julho de 2026 e durante uma inspeção em 06 de julho de 2026, a fornecedora informou que os produtos ainda estavam em fabricação e que nenhum dos itens faturados havia sido entregue.
O instituto apresentou um termo de recebimento parcial segundo o qual os 120 tatames haviam chegado em maio. Os auditores encontraram placas nos locais visitados, mas também identificaram outra compra de 120 unidades, feita com um fornecedor diferente por R$ 58.800. Na avaliação da CGU, não havia controle capaz de vincular os materiais encontrados à nota fiscal da Pulsa. Por isso, o pagamento de R$ 457,8 mil foi considerado sem comprovação suficiente da entrega.
A realização das aulas também foi questionada. Seis prestadores ligados à coordenação, à instrução, à monitoria e ao acompanhamento de educação física receberam R$ 94.564,55 entre março e julho de 2026. A entidade entregou fichas de matrícula, planilhas de frequência, fotografias e um relatório parcial, mas a auditoria considerou o conjunto insuficiente. As fichas comprovavam inscrições, enquanto as planilhas não tinham a assinatura dos beneficiários.
Investigação da Polícia Federal
A operação Make Up apura suspeitas de desvio de recursos de emendas parlamentares. Foram autorizados 49 mandados de busca e apreensão em São Paulo, Rio de Janeiro, Ceará e Distrito Federal.
A suspeita investigada é de que dinheiro público tenha sido repassado a empresas subcontratadas de forma irregular, sem comprovação dos serviços. A frente supervisionada por Flávio Dino examina possível uso irregular de recursos destinados a entidades e empresas ligadas à produtora do filme “Dark Horse”, sobre Jair Bolsonaro (PL). Os fatos ainda estão sob investigação.

