RIO DE JANEIRO — Eny Villela Braga pretende votar no próximo domingo, dia 4, aos 100 anos. Moradora de Volta Redonda, no sul do estado do Rio de Janeiro, ela participou da primeira eleição presidencial brasileira com voto feminino, em 2 de dezembro de 1945, quando tinha 18 anos.
Na ocasião, um erro da Justiça Eleitoral levou sua seção para outro endereço, distante de sua casa, na zona sul do Rio de Janeiro. Eny pediu ajuda ao pai para atravessar a cidade e votar. Seu voto foi para Eurico Gaspar Dutra, que venceu a eleição. Desde então, ela afirma que não deixaria de votar por causa de distância ou de outra dificuldade que pudesse ser superada.
Agora, os filhos vão acompanhá-la até a seção. Eny tende a votar em Luiz Inácio Lula da Silva (PT), por considerar Flávio Bolsonaro (PL) uma opção pior. Ela diz que preferia votar no vice, Geraldo Alckmin (PSB), mas entendeu que isso não é possível separadamente.
Memória política e familiar
Eny acompanhou mudanças políticas e sociais ao longo de uma vida que inclui 22 presidentes, seis Constituições e duas ditaduras. Nascida em Alfenas, Minas Gerais, foi ainda criança para o Rio de Janeiro, então capital federal. Viveu a Revolução de 1930, o suicídio de Getúlio Vargas em 1954, o golpe militar de 1964 e a primeira eleição presidencial após a redemocratização, em 1989.
Ela se casou com um bancário do Banco do Brasil e teve 11 filhos, além de netos e bisnetos. Um dos filhos morreu aos 56 anos. Ele tinha síndrome de Down, e o isolamento no Centro de Tratamento Intensivo durante a pandemia sensibilizou a família, embora a morte não tenha sido causada pela Covid.
Eny ficou viúva em 1984. Deixou de dirigir aos 92 anos, depois de um pedido dos filhos. Atualmente, mantém sessões diárias de fisioterapia e fonoaudiologia em casa e participa de atividades duas vezes por semana em uma academia para pessoas com mais de 60 anos. Usa um andador por prudência, mas costuma se levantar sozinha.
Ela se informa pelo celular e lê notícias e livros no Kindle. “Mas estou lúcida, e enquanto estiver lúcida, vou votar”, afirma.
Trajetória e opiniões
Eny votou em Lula em 1989 e nas eleições seguintes, mas demonstra preocupação com um quarto mandato do petista. Para ela, quem permanece muito tempo no poder pode se tornar um ditador. Também lamenta a divisão entre famílias e defende o diálogo entre pessoas que discordam.
Na infância, Eny foi ligada ao integralismo, movimento associado a Plínio Salgado, por influência do pai. Usava uniforme e participava de marchas. Abandonou essa posição ao ingressar na faculdade, quando passou a compreender o movimento como uma ditadura.
Ela cursou filosofia na Universidade Santa Úrsula, quis ser professora e foi dona de casa por opção. Em Volta Redonda, participou da Constituinte local e do movimento Ética na Política. Também se aproximou da Apae, hoje Instituto Jô Clemente, por causa do filho com síndrome de Down.
A cidade onde vive se desenvolveu com a chegada da Companhia Siderúrgica Nacional, implementada durante o Estado Novo. A siderúrgica foi privatizada em 1993 e continua ligada à economia e à cultura locais, embora a poluição do ar seja alvo de questionamentos.
Católica, Eny frequentou uma igreja em que quatro padres foram presos durante a ditadura militar. Ao comparar o Brasil atual com o país de quando tinha 30 ou 40 anos, conclui que o país está melhor porque não há ditadura.



