O ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF), propôs que a análise sobre a abertura de investigação contra Alexandre de Moraes fique suspensa até que sejam identificados todos os magistrados mencionados nas apurações relacionadas ao Banco Master. A medida também alcançaria integrantes do Superior Tribunal de Justiça (STJ), do Tribunal Superior do Trabalho (TST) e de outros tribunais.
A proposta consta de um ajuste feito por Gilmar em seu voto sobre a questão de ordem que trata do modelo de julgamento do caso. O ministro defende que sejam esclarecidas as circunstâncias em que cada magistrado aparece e que seja determinada a abertura de sindicância. O pedido será analisado pelo plenário do STF quando o julgamento for retomado.
A intenção é definir quais integrantes do tribunal podem participar das deliberações e quem estaria impedido. Gilmar afirma que o levantamento não teria, neste momento, o objetivo de investigar os magistrados, mas de estabelecer a composição legítima do colegiado responsável pelos processos ligados ao caso Master.
Medidas propostas
Gilmar defende que as apurações sobre Alexandre de Moraes e sobre a atuação de André Mendonça na condução do caso Master sejam reunidas em um único processo. Também propõe a redistribuição dos dois procedimentos, conforme as regras do STF, com escolha de relator por sorteio.
O ministro quer ainda identificar todos os magistrados mencionados nas apurações do Banco Master que tenham indícios de recebimento indevido de valores. Depois disso, a Procuradoria-Geral da República e os magistrados citados teriam prazo para se manifestar.
A proposta incorpora uma sugestão de Flávio Dino para que a Secretaria Judiciária faça o levantamento de integrantes do STF e de outros tribunais mencionados nas investigações e delimite os casos com indícios consistentes de recebimento ilícito. Gilmar escreveu: “Apuração parcial é apuração viciada”.
Flávio Dino pediu vista durante a discussão sobre a possibilidade de analisar conjuntamente o caso de Moraes e o de André Mendonça. O ministro atua como relator de apurações relacionadas ao Banco Master, cuja condução foi questionada por um relatório de inteligência da Polícia Federal sem valor probatório.
Menções a Nunes Marques
No documento, Gilmar questiona se Kassio Nunes Marques está apto a participar das deliberações. Ele também volta a criticar a condução das investigações por Mendonça.
Uma conversa de 1º de outubro de 2024 entre Rennó e Vorcaro registra o resultado de um julgamento como “3 (Fachin/Tofoli/Cassio) x 2 (Gilmar e André) desprovido o recurso da União”. Gilmar afirma que as mensagens, isoladamente, não comprovam irregularidade nem atribuem responsabilidade às pessoas mencionadas por terceiros.
O ministro relaciona a conversa a um julgamento da Segunda Turma do STF realizado no mesmo dia, envolvendo a Destilaria Alcídia e uma disputa sobre indenizações ligadas ao controle dos preços de açúcar e álcool pelo poder público. De acordo com o documento, Edson Fachin, Dias Toffoli e Nunes Marques formaram a maioria, enquanto Gilmar Mendes e André Mendonça ficaram vencidos.
Gilmar também registra que Nunes Marques aparecia como impedido no sistema em uma etapa anterior do processo. Depois, o ministro afastou o impedimento, declarou-se habilitado a votar e participou do julgamento. A explicação atribuída a Nunes Marques é que a anotação ocorreu porque ele havia atuado no processo como vice-presidente do Tribunal Regional Federal da 1ª Região. Mais tarde, concluiu que não estava tecnicamente impedido por se tratar de uma tese ampla.
Referências a filho de Nunes Marques
A questão de ordem menciona conversas entre Rennó e Vorcaro envolvendo o contato identificado como “Kevin Marques”. Em 8 de agosto de 2025, Rennó escreveu que faltava uma consultoria entre os pagamentos essenciais e encaminhou o cartão de contato. Em seguida, aparecem as mensagens “Esse aí”, “Único 'meu' que faltou” e “Foi pago”.
Também é reproduzida uma conversa de julho de 2025 em que o mesmo contato aparece acompanhado da mensagem “Esse aqui - 500 mil mês - mantém?”. Gilmar afirma que o contexto permite levantar a hipótese de que se trate de Kevin de Carvalho Marques, filho de Nunes Marques, mas ressalva que não se deve tirar conclusões precipitadas.
O documento registra explicações apresentadas pelos envolvidos, incluindo negativas de irregularidades e justificativas sobre serviços profissionais. Gilmar afirma que as conversas devem ser usadas, neste momento, apenas para verificar a existência de obstáculos processuais à participação de integrantes do tribunal.
Críticas à condução das apurações
Gilmar afirma que relatórios produzidos por determinação de André Mendonça se concentraram em informações envolvendo Alexandre de Moraes, enquanto outros elementos do mesmo conjunto de dados não teriam recebido escrutínio equivalente.
O ministro também diz que os demais integrantes do STF só tiveram acesso aos dados brutos extraídos do celular de Vorcaro na tarde de 14 de setembro, véspera da sessão que analisou questões relacionadas ao caso. No documento, acusa Mendonça de ter adotado “inequívoco viés político-eleitoral” na condução do tema e questiona o momento de produção dos relatórios e da retirada do sigilo.
Alexandre de Moraes já havia acusado Mendonça de fazer uma “escolha seletiva” na divulgação de documentos do caso Master e defendido que os procedimentos relativos à atuação dos dois ministros fossem analisados em conjunto.
Discussão interrompida
Em 15 de setembro, o STF chegou ao placar de 4 votos a 3 pela manutenção, em processos separados, das análises sobre as condutas de Moraes e Mendonça. Gilmar, Cristiano Zanin e Alexandre de Moraes defenderam a tramitação conjunta.
Flávio Dino havia acompanhado inicialmente essa posição, mas pediu vista e interrompeu o julgamento antes de uma decisão definitiva. Na mesma sessão, Gilmar havia defendido a reunião e a redistribuição dos processos por sorteio, proposta rejeitada por Edson Fachin.
Dois dias depois, Fachin retirou de pauta o julgamento sobre a atuação de André Mendonça, previsto inicialmente para 23 de setembro. O presidente do STF afirmou que havia questões pendentes com impacto sobre o caso, incluindo a tramitação conjunta dos processos e a relatoria.



