Pesquisadores das Universidades Federal do Rio de Janeiro e Estadual do Maranhão desenvolveram uma nanoformulação com tarina, proteína presente na parte subterrânea do taro (Colocasia esculenta), conhecido popularmente como inhame. Em testes de laboratório, a formulação inibiu a proliferação de células de câncer de mama e de glioblastoma.
A tarina é uma lectina vegetal com efeitos antitumorais e imunomoduladores. Há mais de 15 anos, a equipe investiga suas propriedades medicinais. Em 2008, os pesquisadores conseguiram isolar a proteína com pureza superior a 90% e determinar sua estrutura tridimensional.
Resultados em culturas celulares
Para direcionar a substância à região do tumor, a equipe a encapsulou em nanolipossomas. A formulação inibiu a proliferação da linhagem agressiva de câncer de mama MDA-MB-231 e da linhagem de glioblastoma U-87 MG, ambas associadas a prognóstico ruim. Em outro estudo, não foram observados efeitos tóxicos em culturas de células humanas saudáveis.
Nos testes, a tarina encapsulada interrompeu o ciclo celular e ativou mecanismos de morte celular, como apoptose e autofagia. A capacidade de migração das células também diminuiu, o que indica potencial antimetastático. Os experimentos realizados em 24 h e 48 h mostraram que os efeitos variaram conforme o tempo de exposição e sugeriram uma liberação sustentada e controlada da proteína.
A equipe criou ainda, em laboratório, uma barreira hematoencefálica usando células de vasos sanguíneos cerebrais humanas. Depois de 180 minutos, 20% da formulação inicial havia atravessado a barreira, um passo necessário para o tratamento de glioblastomas.
Pesquisa ainda não foi testada em pessoas
A análise do proteoma das células de câncer de mama detectou mais de 2 mil proteínas após 24h e 48h de tratamento. No início, as células aumentaram a produção de proteínas relacionadas à resposta ao estresse, à migração e ao reparo. Após 48 h, passaram a expressar proteínas associadas à autofagia e à apoptose, enquanto diminuíram mecanismos ligados à migração, à angiogênese e à proliferação.
Os resultados foram obtidos em culturas celulares e permanecem na fase pré-clínica. Antes de estudos clínicos, ainda são necessários testes em modelos tridimensionais, animais e outros modelos capazes de avaliar eficácia e segurança.
Os próximos planos incluem testar a nanoformulação em esferoides, que simulam tumores, e investigar seu potencial imunomodulador. Estudos anteriores indicaram que camundongos imunossuprimidos por quimioterápico comum se recuperaram após receber tarina livre, com redução de anemia e leucopenia associadas à ciclofosfamida.
O consumo de inhame, no entanto, não trata o câncer. Os achados dizem respeito à tarina isolada e encapsulada em uma formulação experimental, testada até agora em laboratório.



