BELÉM — A 234ª edição do Círio de Nazaré reuniu uma multidão em Belém neste domingo (11), em uma procissão marcada pela devoção à santa, pela participação de pessoas de diferentes religiões e por manifestações de teor político. A estátua de Nossa Senhora de Nazaré percorreu 3,6 km em uma berlinda dourada, puxada por milhares de promesseiros ligados à corda de fibra de malva.
Durante a celebração, Fafá de Belém afirmou: “Que Nossa Senhora nunca seja afastada de nós, nem por decreto. Nossa Senhora é do Brasil!”. A fala foi associada às declarações de Flávio Bolsonaro (PL), acusado, sem provas, de querer retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil depois de dizer que, se eleito, iria “decretar que o Brasil é do Senhor Jesus”.
O Círio é realizado todos os anos em Belém e tinha expectativa de receber 2 milhões de pessoas, considerando o movimento nos cortejos e nas missas. A celebração inclui romarias por barco, moto e a pé, todas dedicadas à padroeira local. No Norte, 36,8% da população com dez anos ou mais se declara evangélica, segundo o Censo 2022, acima da média nacional de 26,9%.
Procissão e promessas
A missa que abriu o domingo foi realizada na Catedral Metropolitana e conduzida por dom Júlio Endi Akamine, arcebispo de Belém. Na homilia, ele tratou do conceito bíblico de submissão feminina e afirmou que a procissão seria lenta porque os fiéis deveriam chegar juntos até Jesus Cristo.
A corda que acompanha a berlinda funciona como uma separação entre a imagem e o público. Savanna, 26, drag queen, participou dela pela primeira vez depois de fazer uma promessa pela saúde da mãe, que é evangélica e foi diagnosticada com diabete. Após exames mostrarem taxas de glicose normais, ela foi agradecer a Nossa Senhora de Nazaré.
A celebração também contou com a presença de pessoas de outras religiões. Luiza Gomes, 53, esteticista da Congregação Cristã do Brasil, pedalou em uma ciclo-romaria até Belém. A devota Carla Sousa, 61, participou da multidão mesmo com a chuva no fim da tarde.
Artistas paraenses apresentaram músicas associadas ao Círio. Fafá de Belém cantou “Eu Sou de Lá”, composta pelo padre Fábio de Melo, enquanto Gaby Amarantos comandou a Laje da Naza. As duas também interpretaram canções como “Ave Maria” e “Noites Traiçoeiras”, acompanhadas em coro pelo público.
Para Antonio Sousa, coordenador desta edição, a força da festa está na união entre fé e identidade regional. A fibra de malva usada na corda é produzida por mais de mil famílias de agricultores locais. “O Círio se vive, se sente”, afirmou.



