SÃO PAULO — A declaração de Flávio Bolsonaro de que seu primeiro decreto presidencial tornaria Jesus o Senhor do Brasil alimentou notícias falsas sobre uma suposta retirada de Nossa Senhora do posto de Padroeira do Brasil. O candidato não prometeu remover a santa, mas sua fala foi interpretada como um sinal de disputa religiosa e territorial com efeitos eleitorais.
A frase “O Brasil é do Senhor Jesus” funciona como uma senha para eleitores evangélicos, especialmente nos ramos pentecostal e neopentecostal. Nessa visão teológica, territórios seriam submetidos à influência de demônios e poderiam ser transferidos, de forma “legal”, para o domínio do bem.
A mesma lógica aparece em placas instaladas nos acessos de cidades brasileiras, com mensagens que associam o município a Jesus. Esses sinais representam, ao mesmo tempo, uma afirmação religiosa e a presença das igrejas evangélicas no território. A promessa de Flávio levaria essa ideia do plano municipal para a esfera federal.
A expansão evangélica, nesse enquadramento, deixaria de ser vista apenas como diversificação religiosa em uma democracia laica e passaria a ser apresentada como busca de hegemonia. O movimento é comparado à posição ocupada pelo catolicismo romano quando a religião era oficial, entre 1500 e 1889.
Com a República, houve separação entre Igreja e Estado. Feriados nacionais e nomes de cidades e estados ligados a santos católicos permaneceram como herança de um período em que território e nacionalidade eram associados a uma confissão religiosa.
A fala também tensionou a relação entre evangélicos bolsonaristas e setores conservadores do catolicismo. Os dois grupos têm a esquerda como inimigo comum e mantêm um pacto tácito de não agressão, mas o afago de Flávio ao triunfalismo evangélico colocou essa aliança sob pressão.
O episódio também é associado à retirada, em 2019, do quadro “Orixás”, de Djanira da Motta e Silva, do Salão Nobre do Palácio do Planalto por Michelle Bolsonaro. A crítica é que a defesa bolsonarista da liberdade religiosa seria compatível com a imposição da religião do grupo vencedor.
Na tentativa de reduzir os danos políticos, Flávio levantou, em São Paulo, uma imagem da Padroeira do Brasil. Também pode ir ao Santuário em Aparecida no dia 12 de outubro. Jair Bolsonaro, embora católico, batizou-se no rio Jordão para buscar apoio entre eleitores evangélicos; Flávio poderia repetir o movimento de aproximação com o catolicismo em uma missa na Basílica de Aparecida.
A conduta do candidato é apresentada como uma redução da fé a instrumento de cálculo eleitoral, demarcação territorial e tensão institucional, em vez de uma defesa da convivência entre crentes e não crentes.



