A Conjuração Baiana, iniciada em 12 de agosto de 1798, defendia a independência política, o regime republicano e o fim da escravidão. O movimento ocorreu dois meses antes do nascimento de Pedro 1º e terminou no fim de 1799, com a execução de seus quatro principais líderes em 8 de novembro: Luiz Gonzaga das Virgens e Veiga, Lucas Dantas do Amorim Torres, Manuel Faustino dos Santos Lira e João de Deus Nascimento.
Também chamada de Revolta dos Alfaiates ou Revolta dos Búzios, a mobilização teve participação expressiva de negros livres, libertos e escravizados, além de trabalhadores pobres e alguns integrantes da elite branca liberal. Os quatro líderes executados eram negros. O episódio é apontado por historiadores como uma das lutas que associavam a emancipação política ao fim da escravidão — combinação que não esteve no centro de outros movimentos de separação de Portugal.
Entre as revoltas anteriores ao 7 de setembro de 1822, a historiadora Ynaê Lopes dos Santos também cita a Inconfidência Mineira, de 1789, e a Revolução Pernambucana, de 1817. Para ela, a Conjuração Baiana foi a que teve maior participação efetiva da população negra e relacionou diretamente independência e abolição.
A denominação Revolta dos Búzios faz referência às conchas usadas pelos revoltosos como pulseiras de identificação. O nome também estabelece uma ligação com populações negras e com religiões tradicionais africanas. A recuperação dessa nomenclatura ocorreu por meio de uma articulação baiana de movimentos sociais negros.
Historiadores afirmam que a narrativa consolidada sobre a independência privilegiou a atuação de elites brancas escravocratas e reduziu outras mobilizações a motins ou rebeliões. A proclamação de 7 de setembro de 1822 passou a ocupar o centro da memória nacional, enquanto revoltas com pautas separatistas, republicanas e abolicionistas foram menos destacadas.
Para a historiadora Ynaê Lopes dos Santos, a manutenção da escravidão foi silenciada na carta constitucional de 1824. Segundo ela, a elite política brasileira construiu um país soberano apoiado na escravidão, instituição que organizava a sociedade brasileira nos campos econômico, político e social.
A Bahia voltou a concentrar disputas pela independência no início da década de 1820. A guerra de independência ocorreu, de fato, em 2 de julho de 1823, quando tropas portuguesas foram expulsas do território. Nesse processo, Santos destaca a presença de negros, mestiços, pobres, homens e mulheres cujas histórias foram silenciadas.
Para Guilherme Soares Dias, esse apagamento está relacionado ao racismo estrutural e à retirada da história da população negra da memória nacional. A recuperação de heróis, lutas e acontecimentos negros, afirma o pesquisador, é necessária para ampliar a narrativa sobre a formação do Brasil.



