BELÉM — Antes das máquinas usadas atualmente, o açaí era preparado à mão e vendido pelas ruas da capital paraense por mulheres negras e mestiças. Chamadas de amassadeiras e vendedeiras, elas trabalhavam em bancas, percorriam a cidade de porta em porta e também exerciam atividades domésticas.
A atuação dessas mulheres foi reconstruída pela historiadora Caroline Porto Brito, da Universidade Federal do Pará (UFPA), a partir de jornais, processos criminais, relatos de viajantes e imagens históricas. O estudo foi desenvolvido durante dois anos de mestrado em História Social da Amazônia e investigou o trabalho e a circulação de mulheres pelas ruas de Belém entre 1871 e 1898.
Trabalho nas ruas e em casas
A pesquisa mostra que as atividades se combinavam. Uma mesma trabalhadora podia atuar como cozinheira na casa de uma família pela manhã e sair à tarde para vender alimentos. Também aparecem nos documentos ocupações como doceira, vendedora e preparadora de bebidas.
Os processos criminais preservados pelo Centro de Memória da Amazônia foram o ponto de partida do levantamento. Ao acompanhar as histórias das mulheres citadas nesses registros, Caroline identificou que o trabalho delas não se limitava ao serviço doméstico. A venda de alimentos era uma estratégia de sobrevivência e envolvia clientela, vizinhança, amizade e solidariedade, além de conflitos, furtos e agressões.
O preparo do açaí exigia que os frutos fossem esfregados vigorosamente com as mãos em grandes vasilhas com água, até a polpa se desprender dos caroços e tingir o líquido de roxo. Em seguida, a bebida era passada por uma peneira de vime e servida aos clientes. O procedimento foi descrito pelo viajante norte-americano Herbert H. Smith, que esteve na Amazônia em 1870.
A reputação das amassadeiras era importante para manter a freguesia, já que a qualidade da bebida dependia do trabalho manual. Em 1885, Theodora recorreu a um jornal para defender sua reputação e seu comércio: “Eu hei de sempre ser preferida pelas exmas. famílias, que me conhecem e sabem que eu sou incapaz de fazer o que dizem!”
Consumo e redes de solidariedade
As vendedeiras carregavam recipientes de barro e gamelas sobre a cabeça enquanto ofereciam a bebida pelas ruas. O açaí podia ser consumido com farinha de mandioca ou açúcar e acompanhava peixe, camarão, arroz, tapioca e mandioca puba. A escolha entre farinha e açúcar também variava conforme o grupo social: a farinha era comum entre as camadas populares, enquanto o açúcar estava associado a determinado status.
Um registro publicado em jornal em 1891 conta que Dona Chiquinha tomava açaí depois do almoço desde criança. Mesmo após um parente tentar interromper o hábito, ele acabou dando dinheiro para que ela comprasse a bebida.
Os documentos também registram situações de violência relacionadas ao comércio. Juliana Maria da Nazareth teve o dinheiro do trabalho ameaçado, e Serafina Maria da Conceição, uma amassadeira, foi agredida depois de um desentendimento.
Em outro processo, Izabel Maria da Conceição aparece como vendeira e amassadeira, além de testemunha de uma agressão contra sua amiga Elisa Maria da Conceição. Izabel contou que tomava açaí com Elisa todas as noites. Depois do ataque, ela e as filhas ajudaram a cuidar dos ferimentos da amiga.
Os registros reunidos por Caroline mostram que o açaí já fazia parte da alimentação e da economia de Belém no século XIX. Nas bancas, nas casas e nas ruas, a bebida dependia do trabalho de mulheres que acumulavam diferentes ofícios e construíam redes de convivência, comércio e apoio mútuo.



