Um estudo realizado por pesquisadores do Instituto Nacional de Câncer (Inca) identificou uma associação entre a expressão anormal da proteína p53 e o risco de recorrência do câncer de endométrio. A análise pode contribuir para definir tratamentos e acompanhamentos mais individualizados para pacientes com tumores de alto grau.
O câncer de endométrio se origina no revestimento interno do útero e é o tipo mais comum de câncer do corpo uterino. O principal sinal de alerta é o sangramento uterino anormal, sobretudo depois da menopausa. A estimativa do Inca para o período de 2026 a 2028 é de 9.650 novos casos por ano no Brasil.
O que mostrou o estudo
A pesquisa revisou prontuários e amostras tumorais de pacientes atendidas entre 2010 e 2025. Foram selecionados dados de 59 mulheres com tumores de alto grau, incluindo carcinoma endometrioide grau 3, carcinoma seroso, carcinoma de células claras, carcinosarcoma e tumores mistos ou indiferenciados.
Todos os tumores analisados estavam limitados ao endométrio ou a um pólipo e não haviam invadido o miométrio, o músculo do útero. Os pesquisadores relacionaram a expressão da p53, proteína associada à proteção do DNA, com a ocorrência de recorrência e a sobrevida das pacientes.
A expressão da p53 foi considerada anormal em 78% dos tumores. Entre as 56 pacientes com doença classificada como estágio mais agressivo, nove tiveram recorrência. Em todos esses casos, a p53 apresentava alteração.
Nos tumores com p53 anormal, a probabilidade estimada de recorrência em cinco anos foi de aproximadamente 23%. Mais da metade desses retornos da doença apareceu fora da pelve, no abdome ou em órgãos distantes. Em contraste, nenhuma paciente com p53 do tipo selvagem, sem expressão anormal, apresentou recorrência em cinco anos.
Os resultados indicam que a ausência de invasão do miométrio não garante, por si só, um comportamento favorável do tumor. A técnica usada para identificar a p53 foi a imuno-histoquímica, método disponível em muitos laboratórios de patologia.
Possíveis impactos no tratamento
A análise da p53 pode ajudar a separar as pacientes em grupos com necessidades terapêuticas diferentes. Mulheres com expressão anormal da proteína parecem ter maior risco de recorrência e podem precisar de cirurgias mais extensas, acompanhamento mais rigoroso e tratamento adicional.
Já as pacientes com p53 do tipo selvagem tiveram evolução favorável no estudo e talvez possam ser poupadas de intervenções desnecessárias. A proposta é reduzir tanto o risco de um tratamento insuficiente quanto o excesso de tratamento.
O trabalho é descrito pelos pesquisadores como o primeiro a associar a p53 ao câncer de endométrio em uma população brasileira atendida pela rede pública ao longo de 15 anos. O estudo foi publicado no periódico internacional Pathology and Oncology Research e incluiu diferentes tipos de tumores de alto grau, não apenas o carcinoma seroso.
Riscos, prevenção e diagnóstico
O risco de câncer do corpo do útero aumenta em mulheres com mais de 50 anos. Entre os fatores associados estão predisposição genética, sobrepeso e obesidade, falta de atividade física, diabetes mellitus, dietas com elevada carga glicêmica e consumo de produtos processados e ultraprocessados.
Também são citados crescimento endometrial, falta de ovulação crônica, uso anterior de radiação para tratar tumores de ovário e uso de estrogênio na reposição hormonal durante a menopausa. A prática de atividades físicas, a manutenção do peso adequado e a gravidez aparecem entre os principais fatores de proteção.
A investigação pode incluir história clínica, exame físico, ultrassonografia transvaginal, histeroscopia e biópsia do endométrio. A amostra para análise microscópica pode ser obtida por curetagem uterina ou videohisteroscopia.
Os tratamentos incluem cirurgia, radioterapia e quimioterapia. Em muitos casos diagnosticados em estágio inicial, é feita a retirada do útero, das trompas e dos ovários. Dependendo da situação, também pode ser necessária a avaliação dos linfonodos próximos ao útero.
A radioterapia pode ser externa ou interna, modalidade conhecida como braquiterapia, e é indicada em alguns casos após a cirurgia. A quimioterapia costuma ser usada nos casos mais avançados. Depois do tratamento, são necessárias consultas periódicas para acompanhamento.



